“Reconhecer o sagrado que existe na vida é o que falta nos debates sobre clima”, afirma Rubens Harry Born, coordenador adjunto do Vitae Civilis. “Porque não se trata apenas de uma questão técnico-científica ou político-econômica. Quando falamos de clima, entramos na esfera ética das relações humanas”, completa.
Para o Reverendo Elias de Andrade Pinto, da Igreja Presbiteriana Independente, “nos habituamos com o Sagrado Criador Pai. Agora, é hora de nos abrirmos para o Sagrado Natureza, a Mãe. Na integração entre o Pai e a Mãe, entre o Céu e a Terra, haverá Paz e Vida para todos e todas as gerações. E nós podemos colaborar com esta jornada”.
O Monge Jô-Shinm, da Comunidade Zen Budista do Brasil, lembrou que há 2700 anos Buda passou algumas instruções para seus discípulos antes de morrer: não derrubar nenhuma árvore , não matar nenhum ser e cuidar da Terra.
Para o Padre Tarcísio, da Pastoral Ecológica da Igreja Católica, “o resgate do humano requer o resgate da natureza”. E esta tarefa deve unir a todos: para ele, as diferentes religiões devem se religar para lidar com os novos desafios do mundo moderno. Uma percepção comum a vários dos participantes, que estão analisando a possibilidade de criar um fórum interreligioso permanente para debater as questões climáticas.
A carta ao Presidente Lula:
Excelentíssimo Senhor Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva,
Vimos solicitar de Vossa Excelência o compromisso com um acordo climático com força de lei em Copenhague que corresponda à urgência de ações de combate às mudanças do clima que já vem trazendo inúmeras catástrofes no mundo todo, inclusive no Brasil.
Cada instante é determinante para assegurar a sobrevivência das atuais e futuras gerações. A Educação de todos, sobretudo no que tange às questões ambientais, é fundamental para as transformações civilizatórias necessárias para proteger a Comunidade da Vida.
Milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil estarão sujeitas a efeitos como seca, inundações e até mesmo o êxodo. As populações pobres são as que já estão começando a pagar esta conta: eventos como as inundações ocorridas recentemente em Santa Catarina e no Norte do Brasil já expõem a dramaticidade da injustiça climática. Seu Governo, que já se notabilizou pela defesa dos excluídos, não pode virar as costas a esta tragédia anunciada.
Temos urgência em adotar decisões audaciosas para salvar a Humanidade e o Planeta, quando, em Copenhague, acontecerá a 15a. Conferência das Partes e com isso mitigar as causas do aquecimento global e implementar as medidas de adaptação aos efeitos inevitáveis de mudanças do clima. Trata-se de uma questão ética que transcende fronteiras: mesmo em proporções diferentes, somos igualmente responsáveis por construir uma solução comum.
Todos os governantes devem zelar pela Comunidade da Vida. Os países desenvolvidos devem se comprometer a reduzir as emissões em pelo menos 40 por cento até 2020. O compromisso de redução de emissão nos países desenvolvidos deve ser complementado com o desvio substancial da trajetória de crescimento de emissões de gases de efeito estufa de principais países em desenvolvimento, com a ajuda dos países ricos em disponibilizar recursos adequados, adicionais e mensuráveis, observados os valores de justiça, equidade e sustentabilidade do desenvolvimento humano.
Sem sua presença, a Conferência das Nações Unidas não terá o mesmo peso. Pois hoje o Senhor representa a nação mais importante no mundo dentro do debate ambiental. Graças à extensão da Floresta Amazônica em nosso território, bem como à presença de ecossistemas únicos, como o Cerrado, o Brasil tem potencial para ser pioneiro numa economia inclusiva, que permita a dignidade do cidadão e do ser humano, porém baseada em tecnologias e modos de produção que gerem baixo carbono.
Em nome da ética que permeia este debate, nós abaixo-assinados pedimos que a liderança máxima do Brasil represente e faça cumprir o anseio de milhões de seres humanos por uma vida mais digna. Porque sem um meio ambiente digno não há dignidade humana. Pedimos que Vossa Excelência compareça em Copenhague e proponha um acordo que garanta a vida de milhões de seres humanos, que demonstre o respeito que o Brasil tem por toda as etnias, religiões e diversidade social. Temos uma tarefa de casa a ser cumprida e contamos com seu empenho.
Temos uma oportunidade única de transformação, e passar a ser um país de vanguarda no que se refere a criar mecanismos para um desenvolvimento socioambiental sustentável e igualitário.
Por isso, organizações da sociedade civil e lideranças religiosas da Região Metropolitana de São Paulo, reunidas encaminham este pedido a Vossa Excelência.
Respeitosamente,
Comunidade Baha'i de São Paulo
Comunidade Católica da Cidade de São Paulo Região Leste – Paróquia São Francisco
Comunidade Católica da Cidade de São Paulo Região Sul – Paróquia Santos Mártires – Padre Jaime Crowe
Comunidade Shalom – Rabina Luciana Pajecki Lederman
Comunidade Zen Budista do Brasil – Monge Jô-Shin
Pastoral da Ecologia - Pe.Tarcísio Marques Mesquita
Congregação Israelita Paulista - CIP
Federação Espírita do Estado de São Paulo- Zulmira Chaves Hassesian, Diretora da Área de Ensino
Igreja Messiânica Mundial do Brasil- Reverendo Rogério Hetemanek
Igreja Presbiteriana Independente - Reverendo Elias de Andrade Pinto
Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – IDEC - Lisa Gunn - Coordenadora
Movimento Nossa São Paulo - Mauricio Broinizi Pereira - Secretário Executivo
Nação Angola - Candomblé
Ramakrishna Vedanta Ashrama de São Paulo (Hinduismo ou Vedanta) - Swami Nirmalatmananda/ Swami Sumirmalananda
Vitae Civilis Instituto para o Desenvolvimento Meio Ambiente e Paz - Percival Maricato - Presidente do Conselho Deliberativo
São Paulo, 28 de outubro de 2009.
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