quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quem ganhou e quem perdeu com a CoP15

A busca por um bode expiatório que levasse a culpa pelo anti-clímax proporcionado pela CoP15 teve início ainda durante a realização da conferência e intensificou-se nas semanas seguintes. China e Estados Unidos foram os alvos preferenciais, mas sobrou para todo mundo, dos países da Comunidade Européia às chamadas "nações bolivarianas". Porque embora o fracasso da CoP tenha atendido aos interesses de todo mundo - e olha que tirando Tuvalu e as ilhas da Oceania que estão afundando, era literalmente todo mundo: quem não queria continuidade do Protocolo de Kyoto, quem não queria meter a mão no bolso para financiar a migração para uma economia de baixo carbono, quem não queria adotar metas ou ter que prestar satisfação sobre as metas auto-declaradas... - e, neste sentido, todos saíram vencedores, ninguém tinha o que comemorar porque a vitória foi obtida às custas de um preço altoque somou ônus de imagem perante a opinião pública e falta de controle sobre o processo.

Insisto na questão do controle porque ela é crucial para o desenvolvimento econômico e para o jogo político. Mais do que isso: é um dos paradigmas da modernidade. Paradoxalmente, é na época em que o princípio da incerteza impõe-se na ciência que a sociedade é dominada pela necessidade de controle - motivo pelo qual aceita-se uma vigilância à la BigBrother via câmeras em espaços públicos, compra-se todo tipo de produto antibactericida, faz-se seguro de todo tipo... Nunca antes na história o ser humano conviveu tão mal com o risco - um assunto, aliás, que é estudado à exaustão na tentativa de entendê-lo e controlá-lo.

Pois bem: em um tema de alcance global, como o clima, que desconhece fronteiras nacionais, a ausência de uma coordenação internacional compromete a ação dos agentes econômicos. Ainda mais que a economia atualmente é, efetivamente, globalizada. E é de economia que estamos falando o tempo todo, quando discutimos mudanças climáticas: padrões de produção, matriz energética, externalidades, cálculo de custo e de riqueza... Sem cronogramas, marcos regulatórios ou diretrizes internacionais, fica mais complexo (e caro) para as empresas com atividades em diversos países avançarem nesta questão. Fica mais complexo (e caro) para os agentes financeiros que oferecem produtos baseados em sustentabilidade alçarem suas opções de investimentos em mercados internacionais. Tudo que se refere ao tema tenderá a ser tratado em base local, gerando disparidades e insegurança aos investidores.

Em outras palavras: as empresas ganharam ao empurrar com a barriga a necessidade de se adaptar a um novo padrão produtivo; mas perderam em estabilidade e segurança na condução do processo - agora, mais do que nunca, é uma questão de mercado: vai depender da pressão dos consumidores e da rapidez no desenvolvimento de tecnologias e sistemas de gestão competitivos. É cada um por si. Sem linhas especiais de financiamento, proteção ou penalização fiscal organizadas. Desorganizadas e inesperadas, porém, as sanções podem surgir a qualquer momento: ninguém mais duvida que a questão climática se transformará em barreira comercial - resta saber quando. Considerando-se que a China acaba de ultrapassar a Alemanha na posição de maior exportadora mundial, segundo a Global Trade Information Services Inc. e que boa parte da competitividade dos chineses deve-se à ausência de políticas ambientais e de recursos humanos, não soará estranho se as nações européias resolverem "compensar" esse desequilíbrio - como já fazem, diga-se de passagem, com nossa agricultura (com base em outras alegações, bem entendido).

Porém para alguns setores o ganho foi significativo: obviamente, toda a cadeia produtiva ligada à extração, refino e distribuição de petróleo e seus derivados, incluindo-se aí aquelas ligadas umbilicalmente aos combustíveis fósseis, tais como indústrias químicas e automobilística e de energia. Pois aqui não ia ter jeito: o core business em si ia ter que mudar e, em alguns casos, pode ser que a empresa não consiga manter seu atual nível de influência, poder e lucro.

O mesmo ocorre com os países produtores de petróleo: sem o ouro negro, que relevância o Hugo Chávez teria na América Latina? A Rússia faria parte dos BRICs? Sem petróleo, o que diferenciaria os países árabes das nações africanas? Mas desde a década de 70 quando, sob os auspícios da Opep eles decidiram formalizar o cartel para controlar preços e produção, eles ganharam poder e relevância no cenário internacional. São, certamente, grandes vencedores do naufrágio da CoP15. O dado irônico é que o histriônico Hugo Chavez tenha se saído bem também perante a opinião pública, que assinou embaixo e reverberou ad nauseum na internet a frase de seu discurso que dizia que se o clima fosse um banco, já teria sido salvo. Ok, ele mandou bem - mas com que legitimidade ele pode afirmar isso??

Se as empresas e países produtores de energias tradicionais ganharam, as empresas ligadas à cadeia produtiva das energias alternativas perderam: fabricantes e investidores que esperavam catapultar os negócios na esteira de planos mais ambiciosos de mitigação das emissões de CO2 terão que se contentar com o business as usual. O crescimento do setor vai continuar já que a adesão a fontes e tecnologias de energia limpa é uma tendência irreversível, porém o ritmo da expansão dependerá das condições de mercado que, neste momento, não são tão auspiciosas assim: a crise econômica do hemisfério norte reduz linhas de financiamento e eleva a relevância do fator preço nas decisões de compra individuais e dos governos, pressionados a reduzir suas despesas.

Mas não perderam os países que apostam em energia alternativa: considerando-se que a tendência é inexorável, no longo prazo, leva vantagem quem estimular o florescimento de um parque fabril forte e competitivo neste setor. Este é o motivo pelo qual a China é hoje, ao mesmo tempo, a economia mais suja e mais limpa do mundo. Se por um lado eles abrem duas termelétricas por semana e não abrem mão dos combustíveis fósseis para turbinar seu crescimento, por outro investem fortemente na produção e uso de energias alternativas, sendo hoje os maiores investidores em eólica e os maiores produtores de placas fotovoltaicas.

Dentro das energias renováveis, quem está perdendo espaço é o etanol de cana, apesar de todo o interesse que despertou lá na CoP15. Embora o Brasil tenha oferecido transferir a tecnologia para outros países tropicais adequados ao cultivo da cana, notadamente na África, não houve receptividade. Entre o álcool de cana e a exploração de petróleo com financiamento e mercado garantidos (a China), nossos co-irmãos de G-77 optaram por não correr riscos em nome do meio ambiente. Será que era por isso que eu não conseguia engolir aquelas manifestações das ONGs africanas na primeira semana da CoP? Eu ouvia os discursos, via as faixas e não conseguia acreditar na sinceridade daquelas frases de efeito. Especialmente quando invocavam as mulheres africanas, que estariam sofrendo com o aquecimento global... e que sofrem tanto com a desigualdade, o desrespeito a direitos básicos, o preconceito... Bom, mas isso é assunto para outro lugar, já que me propus a focar na questão das negociações climáticas. Em suma, acho que o etanol de cana de açúcar acabará ficando restrito ao Brasil, apesar de todos os esforços do governo brasileiro e da associação de produtores, a UNICA. E, confesso, eu lamento isso: se você pegar o globo terrestre e olhar os lugares onde a cana pode dar certo, verá que são justamente os países menos desenvolvidos, que poderiam ganhar relevância dentro da matriz energética mundial - e, de quebra, reduziríamos o risco político alimentado por petrodólares de países como Irã, Venezuela, Rússia, Arábia etc. etc. Junto com o lobby para reduzir o uso de armas nucleares, Israel deveria investir na defesa da adoção de energias alternativas para enfraquecer as finanças de seus inimigos - risos!

A China foi um dos principais responsáveis pelo resultado da CoP15, já que jogavam em três frentes: na relação simbiótica com os EUA, na condição de principal detentora dos títulos públicos daquele país; no grupo BASIC (Brasil, Índia, África do Sul e China), que compos uma aliança para tentar intermediar as negociações entre países ricos e o restante do G-77, ao qual originalmente pertencem; e no G77 via as nações africanas que estão recebendo seus vultuosos investimentos. Mas para conseguir o que queria - que era apenas estabelecer uma meta individual e não deixar ninguém de fora certificar se a meta foi atingida ou não - seus delegados e seu primeiro ministro tiveram que jogar muito pesado. Resultado: foi uma das mais acusadas pela imprensa mundial e isso certamente pesará nas futuras negociações internacionais. Percebe-se que o resultado não era o esperado pelo governo chinês pelo fato de que o negociador chefe, He Yafei, ter sido removido do cargo de vice-ministro de relações exteriores. Obviamente que dentro daquela notória tradição de transparência dos chineses, não houve qualquer informação sobre os motivos da transferência e para onde o rapaz teria sido transferido. Pode até ser que ele tenha sido promovido, mas ficou no ar a sensação de punição (típica do regime comunista de Pequim) pelo desastre de relações públicas que a CoP15 foi para a China. Se eles nutrem alguma intenção de ocuparem o lugar dos EUA como principal potencial mundial (e eu aposto com você que eles pensam nisso, sim), a CoP foi uma grande derrota. Não podemos nos esquecer que eles têm que lidar com um fosso cultural que separa o ocidente do oriente - e adquirir uma imagem de inabilidade em negociações internacionais não ajuda em nada a reduzir as distãncia que separa esses dois mundos.

O movimento ambientalista, por sua vez, ganhou em visibilidade e relevância. E também em trabalho: será mais um ano de mobilizações até a CoP16! Porém ficou com o flanco exposto - isso será tema de um texto específico, nos próximos dias.

Os EUA perderam em imagem, mas ganharam ao retardar uma vacilante Europa nesta questão: a diferença de padrões de produção já é gritante e um maior avanço em direção a uma economia de baixo carbono poderia acabar gerando um diferencial competitivo muito favorável ao velho continente, no longo prazo; obviamente, no curto prazo o custo dessa migração penaliza a todos e explica porquê a Europa chegou tão dividida à CoP: nem todos têm recursos (ou vontade) de pagar essa conta. Porque no final do dia, toda a questão climática resume-se nisso: a uma conta que ninguém quer pagar.

A ONU perdeu em imagem, em credibilidade e em controle da história. A Dinamarca, em imagem (se bem que já vi blogueiro dinamarquês dizendo que, internamente, a imagem do primeiro ministro não foi muito afetada pois todos já esperavam um comportamento burlesco por parte dele). O Yvo de Boer em imagem e poder.

E o Brasil? Resposta no texto de amanhã!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Por que a CoP15 deu no que deu?

Mesmo não chegando ao acordo que os ambientalistas desejavam e que a maioria dos cientistas recomenda, ainda assim a CoP15 poderia ter tido um final diferente. Duvido que qualquer um dos 120 chefes de estado presentes ao evento tenha gostado de sair à francesa, sem foto oficial ou uma boa notícia para levar de volta aos seus eleitores. Então por que a CoP15 deu no que deu?

Um dos principais motivos (mas não o único) foi a má condução dos trabalhos pelo país anfitrião, a Dinamarca. É praxe, pelas regras de realização das CoPs, que a autoridade do país que hospeda o evento seja também presidente da conferência. Como um presidente de Câmara dos Deputados ou de Senado, essa pessoa tem muito poder porque delibera diretamente sobre os procedimentos de trabalho. Com isso, pode ajudar muito... ou atrapalhar. E atrapalhou. Primeiro, pela falta de preparo, a qual se tornou mais que evidente no último dia quando, diante da total falta de consenso em relação a qualquer documento que pudesse ser anunciado como um Protocolo de Copenhagen, como era sua ambição, Lars Lokke Rasmunssen, primeiro ministro da Dinamarca, pediu para que os delegados deliberassem por voto - um procedimento que não é aceito pelos procedimentos da ONU. Ou seja, em seu afã para produzir um documento que pudesse ser divulgado como resultante dos trabalhos, ele produziu um texto sem qualquer valor para o processo de negociações climáticas. Se preferir, ele presidiu a redação de uma ata de reunião. E ponto.

À falta de preparação do primeiro ministro da Dinamarca podemos somar o que, na falta de expressão melhor, chamarei de má fé. Ciente da janela de oportunidade que a CoP lhe daria, o primeiro ministro da Dinamarca não se fez de rogado: dê uma busca no Google e veja o número de chefes de Estado com os quais ele esteve e/ou falou em 2009. Sob a alegação de tentar sensibilizar as lideranças mundiais sobre a importância de um acordo, Rasmunssen fez uma peregrinação para defender a convergência de trabalhos para um acordo politicamente vinculante, ou seja, sem valor legal. As conversas devem ter caminhado bem porque mesmo antes do evento ele já dava entrevistas defendendo essa possibilidade - o que evidenciou que o rapaz abandonou a postura de neutralidade que se espera de um país anfitrião e tomou partido. No caso, das nações desenvolvidas: da garganta de madeira do boneco Rasmunssen saiam as vozes dos vários países-ventrílocos que o manipularam para tentar impor o que, publicamente, negavam tentar obter - menos amarras e mais tempo sob os auspícios do modo de produção baseado em combustíveis fósseis. Em outras palavras, um acordo "politicamente vinculante", sem qualquer valor legal.

Essa postura comprometeu a credibilidade de um processo que já vinha sofrendo vários ataques: primeiro, foram os tais emails hackeados mostrando supostas divergências entre os cientistas de uma universidade inglesa que contribuiram com os estudos que servem de base para que a Convenção Quadro da ONU para Mudanças Climáticas (sob cuja égide ocorrem as CoPs, lembra?) parta do princípio de que, sim, o clima está mudando e, sim, está mudando por causa da ação humana. Não sei se você sabe (depois que tomamos conhecimento, soa como óbvio), mas esta notícia que você talvez tenha visto na imprensa aqui no Brasil foi o grande destaque da mídia nos paises árabes nas semanas que antecederam a CoP. Assim como existem militantes ambientalistas, existem militantes da tese de que não existe aquecimento global - e eles não deram trégua. Tanto que na cerimônia de abertura da CoP o Dr. Rajendra Pachauri, chefe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, abordou o assunto em seu discurso, dando a devida satisfação à opinião pública (até aquele momento, o IPCC não havia se manifestado a respeito). Depois, veio o vazamento para a imprensa de um dos primeiros rascunos do tal do acordo politicamente vinculante, na segunda semana do evento. Tanto num caso, como no outro, notava-se a tentativa de minar a credibilidade do processo em um jogo pesado, sujo, feito debaixo do pano.

E chegamos aqui a outro fator pelo qual a CoP deu no que deu: se o motorista portou-se como um bêbado, cometendo todo tipo de barbeiragem, dentro do veículo só tinha pit-bull. Todos rosnando e mostrando os dentes uns para os outros. Mordendo-se, eventualmente. Ocorre que não havia nenhum animal com força suficiente para se impor - falaremos sobre isso em outro texto. E ao longo de duas semanas de disputas que levaram a impasses cada vez maiores, à medida em que subia o nível hierárquico do cão que rosnava, todos foram feridos.

Todos tinham ciência do momentum especial - de atenção da opinião pública, de tensão sobre as delegações - programado desde 2007 para a CoP15. E todos sabiam que se conseguissem impor sua visão e sua vontade, não haveria mais resistência forte o suficiente para reverter o processo. Então todos os participantes oficiais e não oficiais prepararam-se - e os organizadores, não. Sob o olhar da sociedade por meio das lentes da imprensa, o mundo testemunhou o avanço do caos.

Só que caos = ausência de controle. E como reza a lenda, melhor um sistema velho e ultrapassado, porém conhecido e portanto, controlável, do que eventos que eclodem aleatoriamente sem que possamos nos preparar ou prever. Ou seja, no fundo ninguém gostou do resultado, embora ele jogue o problema para frente, como muitos queriam, porque agora ninguém sabe como essa história vai se desenrolar. As empresas européias conseguirão uma vantagem competitiva com uma gestão sustentável? Quem será o primeiro a sobretaxar os carbonizados produtos chineses, tirando-lhes parte da competitividade obtida graças a uma matriz energética suja? Ou ficarão todos quietos?

Mas, sobre, isso, falaremos em outro texto.

Post scriptum

Não custa lembrar que o primeiro ministro da Dinamarca é uma espécie de Silvio Berlusconi da Escandinávia, ou seja, um político reconhecido como bufão e marqueteiro. Quando se lembra que a CoP15 não deveria ter acontecido na Europa e sim em um país da América - e que a ONU optou por Copenhagen graças à defesa da cidade que foi feita por seus político - é inevitável deduzir que essa história toda foi conduzida com finalidade política. Será que eles acharam que a CoP era como uma Copa? Olimpíadas? Que ia aumentar o turismo? Porque certamente eles devem ter achado que fomos a turismo para a Dinamarca. Mesmo considerando-se que é praxe a restrição de acesso ao local da CoP quando começam as chamadas high-level sessions, sessões de alto nível em tradução literal, que são os dias nos quais ministros, primeiros ministros e presidentes participam, ainda assim é difícil entender porque nesses dias só liberaram a entrada de 300 representantes de ONGs quando foram credenciados 22 mil pessoas apenas nessa categoria (ou seja, além dos delegados dos países, dos funcionários do sistema ONU e dos jornalistas). Que outra explicação dar para um credenciamento tão superior à capacidade do local escolhido para o evento, o gigante Bella Center, que comporta 15 mi pessoas? Eles certamente acharam que as pessoas pagaram passagem aérea, acomodação e custo de vida de Escandinávia em comida, transporte etc. para conhecer o país, né?

Á medida em que a CoP transcorria, ficava evidente que eles não haviam recusado nenhum credenciamento antes: 1) para evitar atritos; 2) porque acharam que muita gente ia se credenciar e não iria participar - prova disso é o fato de que no primeiro dia de evento (quando ainda o afluxo de pessoas era baixo em relação aos dias posteriores) a comida das lanchonetes acabou às 15h00!!! Eu tive sorte de pegar o último sanduíche disponível na lanchonete onde fui pegar comida naquele dia - a pessoa atrás de mim na fila teve que se virar com snacks! Ou seja, eles não tinham a real dimensão do interesse que a CoP ia gerar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A CoP15 foi um fracasso?

Qualquer reflexão sobre a CoP15 passa obrigatoriamente pela pergunta: a conferência foi um fracasso? Não, não é ingenuidade fazer tal questionamento - é, na minha opinião, um dos melhores pontos de partida para analisar o que ocorreu durante as duas semanas que precederam o solstício de inverno na fria Copenhagen. Porque ela remente a outra pergunta, mais crítica: o que esperávamos da CoP15?

O discurso oficial das ONGs ambientalistas dizia: esperamos um acordo justo, ambicioso e com poder de lei (ou, em inglês, Fair, Ambitious, Biding, formando a inicial FAB, que é também abreviatura informal de fabulous, fabuloso - mais um daqueles trocadilhos geniais que só funcionam em inglês). Esse era o mote dos abaixo-assinados, das passeatas, das coletivas e manifestações.

Esse teria sido o mundo ideal, desenhado por negociadores até a CoP13, aquela que trouxe o Mapa do Caminho e a fatídica data de dezembro de 2009 para que um novo acordo climático fosse fechado, dando continuidade ao Protocolo de Kyoto. Foi aí que o ideal começou a dar espaço para a realidade: já na CoP14 as negociações as negociações davam sinal de impasse, situação que não melhorou ao longo das reuniões intermediárias realizadas em Barcelona e Bangcoc no ano passado. Ou seja, mesmo antes do Primeiro Ministro da Dinamarca, Lars Lokke Rasmunssen começar a propagandear o tal do acordo "politicamente vinculante", semanas antes do início da CoP15, já havia fumaça no ar. E, como você sabe, onde há fumaça... há CO2! No caso, o CO2 produzido por fortes setores econômicos e países dependentes dos combustíveis fósseis, para os quais a migração para uma economia de baixo carbono não interessa.

Ocorre que o número de países e setores da economia que se encaixa nessa descrição vai muito além da indústria petrolífera e das nações da península arábica: friamente falando, qual país ou atividade econômica está preparado para produzir emitindo menos CO2? A pujante indústria de placas solares? Ou o promissor mercado de energia eólica?? A verdade é que no curto e médio prazo ninguém está preparado para abrir mão do petróleo, do gás, do carvão...

Sem uma base no mundo real, seria difícil criar um arcabouço legal ou jurídico: historicamente, qualquer órgão legislativo em qualquer parte do mundo tende a legalizar o que a sociedade já mudou. Então foi preciso que a sociedade se chocasse para que a defesa da honra deixasse de ser uma brecha jurídica de consentimento ao assassinato da esposa pelas mãos do marido. Foi preciso que a sociedade deixasse de ficar chocada para que o divórcio fosse juridicamente implantado. As mudanças sempre veem da sociedade: o governo (ou o órgão supragovernamental) apenas ratifica.

E a sociedade tampouco está preparada para a mudança necessária. A começar pela imprensa, que só se deu conta da importância do tema praticamente na véspera da CoP15. Eu vi canal brasileiro de televisão mandando a moça da previsão do tempo para cobrir a Conferência. Mudança climática, previsão do tempo... sacou a piada? Pois é, não foi piada - e eu testemunhei como a coitada ficava perdida nas entrevistas e nas apurações...

Sem informações divulgadas amplamente, o tema ficou restrito aos que se interessam por questões ambientais. Mas sobre o papel do movimento ambientalistas falarei em outro texto. Aqui cumpre apenas destacar que todo o discurso inflamado, campanhas etc. visavam criar a maior pressão possível para que um acordo saísse. Porém como ainda há pouco diálogo entre ambientalistas e o setor produtivo - como as estéreis discussões entre a Kátia Abreu e o Carlos Minc comprovaram - a realidade não muda. E, não mudando, a lei também não muda.

Então, se formos responder honestamente à pergunta "a CoP15 fracassou?", a resposta, na verdade, é: não, a CoP15 não foi um fracasso - ela foi apenas um perfeito reflexo do estado das coisas no mundo. Reflexo de governos, de empresas e da sociedade. Reflexo meu e reflexo seu, que me lê. Por mais que isso doa a quem se preocupa com o tema e se ilude achando que é mais consciente ou ativo do que os "alienados" e "consumistas". Na verdade, somos todos pecinhas de um mesmo caleidoscópio que, por mais que projete imagens diferentes, não consegue fugir do mesmo prisma: o da economia baseada em carbono.

Não foi a CoP que fracassou: fomos nós. E todos sabem disso: pode reparar que ninguém saiu feliz com o resultado da conferência, mesmo quem não queria fechar um acordo. Mas, sobre isso, falaremos outro dia.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Este blog em 2010

Não tenho qualquer garantia de que eu vá conseguir acompanhar a CoP16. Pelo contrário: receio um maior rigor maior por parte da ONU no credenciamento de participantes depois do fracasso de Copenhagen. Mas isso não importa: eu já decidi que este ano Ascendidamente será um blog sobre negociações climáticas - perspectivas, impasses, novidades no andamento dos procedimentos que ocorrerão de agora até dezembro deste ano, quando mais uma vez as delegações das 192 nações signatárias da ONU estarão reunidas para tentar fazer algo em nível global sobre clima.

Os textos irão de análises do que foi a CoP15 e perspectivas para a negociação até explicações básicas sobre os vários termos e temas (e siglas) que permeiam as negociações. Você vai se emocionar com assuntos palpitantes como LULUCF, AWG-LCA e as últimas do Protocolo de Kyoto! Também tentarei "cobrir" o calendário oficial da UNFCCC (Convenção Quadro da ONU para Mudanças Climáticas), que é o órgão da ONU sob o qual as CoPs são realizadas. Já estão previstas duas atividades formais para 2010, fora a CoP16: 31 de janeiro é o prazo máximo para que os países enviem formalmente suas metas individuais para a e no final de maio / começo de junho teremos uma rodada de duas semanas de negociações prévias em Bonn.

Antes que você me pergunte, sim, eu assisti Julie e Julia e, sim, adorei o lance de colocar uma meta para o blog e, sim, foi isso que inspirou a mudança no Ascendidamente. Não será a gincana de receitas da protagonista do filme, mas é uma proposta desafiadora o suficiente para que eu me sinta motivada. Ok, ela certamente deixará o Ascendidamente um pouco mais técnico. Árido. Prometo fazer o possível para que ele não fique chato, mas perder em leveza é inevitável. Espero sinceramente que a qualidade do conteúdo compense.

E assim começo 2010, neste dia 4 de janeiro. Feliz Ano Novo para todos nós!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Me perdoem pelo sumiço

Querido(a), eu peço desculpas se vc tem vindo aqui e não tem encontrado novidades. Mas a CoP15 foi um rolo compressor do qual ainda estou me recuperando - fisica, mental e emocionalmente. Não sei quando, mas quando voltar vou postar minhas reflexões sobre o evento e as consequências do seu fracasso. É mais provável que isso aconteça por volta do Ano Novo. Então, se puder, não deixe de passar aqui novamente em janeiro.

Aproveito para lhe desejar Boas Festas e um 2010 nota 10!

bjs,

silvia

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Tem coisas que só dá para escrever no blog pessoal

É meia-noite e dez aqui em Copenhagen. Ainda estou no Bella Center. Ao meu lado, o embaixador Sérgio Serra, do Itamaraty, entra ao Vivo no Jornal Nacional. A COP15 chegou ao fim de fato, embora não oficialmente: ainda há negociadores trabalhando em cima de um texto que pode ser apresentado a qualquer hora. Mas todas as lideranças já partiram. E deixaram para os assessores apagarem as luzes.

A COP15 era para ser como a Primeira Guerra Mundial, a guerra para acabar com todas as guerras e que acabou gerando um dos massacres mais traumatizantes da história da humanidade. Aqui, a idéia era fechar um acordo que pudesse contribuir com a atual tendência de alteração do clima decorrente da ação humana. Ok, vamos deixar o romantismo e o exagero de lado: todo mundo sabia que não ia sair um acordo decente. Mas nunca ninguém pensou que no final os chefes de estado abandonariam a conferência dando coletivas para os jornalistas de seus países defendendo as posições retranqueiras e atacando-se mutuamente.

Para mim, da CoP15 ficaram as seguintes lições:

1 - Os Estados Unidos ainda são a grande potência hegemônica do planeta. Mesmo com uma economia combalida, mantêm o poder graças à relação simbiótica com a potência-to-be, a China. Juntos, eles afundaram, pelos países desenvolvidos e pelos países em desenvolvimento, as chances de um acordo minimamente decente. Pelo andar das conversas até agora, só houve consenso em relação ao limite de aumento da temperatura: 2 graus centígrados. Metas, financiamento, mecanismos de governança - tudo ficou em aberto.

2 - Falam que a questão ambiental é, na verdade, econômica. Não: a questão é política. Em duas dimensões:

2.1 A democracia imaginada no Iluminismo provou-se insuficiente para representar efetivamente os diversos setores da sociedade, que buscam novas formas de participação (ou engajamento, em comuniquês) das partes envolvidas (stakeholders - argh!). Com a comunicação on line, a articulação e a transparência crescem esponencialmente. A soma desses fatores faz com que os governantes tenham que adicionar uma nova peça no tabuleiro do xadrez eleitoral: a opinião pública mundial. O que a CoP15 evidenciou foi a presença e a força deste novo ator, desconhedido para o establishment - e, como tal, tratado como inimigo no ato de expulsão das ONGs do Bella Center e no confinamento da imprensa no penúltimo dia da conferência.

2.1.1 Apesar disso, sou muito crítica em relação ao movimento ambientalista: ao mesmo tempo em que explicitou que a opinião pública hoje é global, a CoP15 também expôs que a questão climática é assunto de um nicho da sociedade: perto do conjunto de cidadãos alfabetizados, com acesso a computador etc., os números de mobilização foram muito tímidos, embora impressionantes, em termos absolutos.

2.2 Um mundo globalizado exige uma governança internacional que a ONU, definitivamente, não consegue entregar. Não faz sentido ter uma substituição de presidente da CoP na fase final de negociações por não ter status político condizente com os chefes de estado que seriam recebidos. Ou ainda não ter os mecanismos para cobrar o cumprimento de acordos já fechados (abrindo espaço para justificar o não fechamento de um novo tratado). A fragilidade da ONU foi, sem dúvida, o que permitiu que o processo em si fosse questionado hoje, no último dia, por todos os participantes - que alegam dúvidas sobre a transparência do processo etc. etc. Nunca pensei que isso fosse colocado em xeque aqui. Mas foi. Não bateram neste ponto, mas ele ficou exposto.

3 - Não é possível continuar tratando da questão climática como um assunto separado da fazenda, do planejamento, da saúde, da indústria e comércio, da agricultura... O ministro do meio ambiente, Carlos Minc, está aqui do meu lado falando com jornalistas. Mas ele que me perdoe: meio ambiente é muito grande e muito importante para ficar com uma única pasta ministerial, no nível doméstico, ou na Convenção Quadro da ONU para Mudanças Climáticas, no nível internacional. Enquanto não houver uma nova abordagem, não chegaremos a novas soluções para os novos problemas que estamos enfrentando. Neste momento, aqui no Bella Center, tudo isso cheira a mofo.

4 - A CoP teve o resultado que teve porque quem estava aqui queria isso: tinha quem queria acabar com o protocolo de Kyoto, tinha quem queria ficar sem metas, tinha quem não queria meter a mão no bolso... E todos saíram vencedores desta CoP. Só não têm como justificar tal vitória perante a tal da opinião pública, por isso saíram de mansinho deixando o terceiro escalão cuidar disso.

O que o futuro reserva? Mais blablablá? Como manter a mobilização da opinião pública? Se por um lado é bom que todos tenham a clara percepção do fracasso que foi a COP15 - e que esse fracasso deveu-se aos representantes dos diversos governos aqui reunidos - por outro havia um momentum da opinião pública que talvez não seja fácil repetir. Sabíamos disso e quem lutava para derrubar as chances de um novo acordo também sabia. E eles ganharam.

Minha experiência de duas semanas trancada o dia inteiro neste centro de convenções foi muito boa. Tive a sorte de trabalhar com pessoas adoráveis, com quem me entrosei muito bem. Descobri que gosto muito de acompanhar estas chatices e tentar entender o que rola por aqui. Ainda sou junior na área - e quem me conhece sabe o quanto eu sou idealista, o que explica minhas lágrimas ao ouvir a fala do filho da puta do Obama. Mas foi uma experiência muito rica.

Que venha a CoP16! Até lá, estarei melhor preparada. Me aguardem.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A marcha dos 100 mil em Copenhagen

Diretamente das ruas de Copenhagen, hoje, exatamente na metade do caminho entre o começo e final da CoP15, as pessoas mandaram um recado para seus governantes. E mandaram bem!

O dia a dia aqui na CoP15