Guapiruvu: o Brasil que pode dar certo

Marcelo Cardoso (*)



Guapiruvu é um bairro da cidade de Sete Barras, no Vale do Ribeira, litoral sul de São Paulo.  Esta é a região de maior índice de pobreza no Estado de São Paulo, mas é também uma região importante pela preservação e pela unificação entre o social e o ambiental. Foi aqui que o Vitae Civilis deu início a seu trabalho em 1997 com uma agenda local de desenvolvimento.  E agora, em 2013, voltamos para olhar essa trajetória e avaliar o trabalho realizado para esta comunidade e a contribuição dada pelo Vitae Civilis a este processo.


O encontro do Vitae Civilis com a comunidade do Guapiruvu se deu em um momento bastante delicado de sua  história.  Ocupação tradicional, teve sua relação com o ambiente pautada pelo conhecimento passado de geração a geração. Conhecimento esse que mostrava que a pequena área fértil do Guapiruvu fica próxima da beira dos rios que, portanto, não podiam deixar de ser aproveitada.  Mas a lei ambiental se impôs: pelo benefício da sociedade como um todo, foi criado em 1995 o Parque Intervales. Toda a terra se tornou área de preservação.  Plantar na beirada dos rios tornou-se impossível: a importância da mata ciliar transcendia os interesses particulares da comunidade. 



Na encruzilhada entre a ocupação tradicional e a legislação ambiental surgiu a perspectiva de organização social: baseado na metodologia da Agenda 21, o Vitae Civilis trabalhou com a comunidade do Guapivuru na construção de uma agenda local de desenvolvimento.  Foram anos de mapeamento, conversas, diagnóstico e desenho de mapa, que partia de onde a comunidade estava em direção a onde ela sonhava chegar. 



Com a agenda de desenvolvimento local, sonhou-se, mas também se realizou.  O trabalho foi desenvolvido em quatro programas: organização social, políticas públicas, negócios sustentáveis e ecocidadania.  Eles geraram três instituições com CNPJs próprios: a Associação, a Cooperativa e o Clube Ambiental.    A elas veio se juntar, mais tarde, o assentamento de 61 famílias, promovido pelo INCRA.  Cada família recebeu cerca de 6 hectares, com 1-1,5 hectare de área média de plantio por lote, uma vez que muitas áreas não podem ser derrubadas.



Olhar a partir de uma perspectiva de 15 anos depois do início da caminhada confirma a importância do longo prazo para iniciativas de sustentabilidade.  O que aconteceu no Guapiruvu comprova que é no médio e longo prazo que elas maturam – e com resultados surpreendentes.  Pois a agenda de desenvolvimento local contribuiu também com o amadurecimento dos líderes comunitários, que passaram a se articular na busca de políticas públicas por conta própria. O Vitae Civilis pode se retirar do Guapiruvu e ainda assim as ações, a execução desse plano de desenvolvimento tiveram continuidade.



Do ponto de vista econômico, a base do projeto de desenvolvimento local do Guapiruvu é a agroecologia da banana e da pupunha, vendida nos mercados de Sorocaba, Santo André, Mauá, Embu.  Ela permite a preservação ambiental e exercita a economia solidária.



De acordo com a Food and Agriculture Organization (FAO), 870 milhões de pessoas passam fome no mundo, apesar de produzimos comida suficiente para alimentar a todos. A cada 60 minutos, cerca de 300 crianças morrem em decorrência de desnutrição crônica – ou 5 a cada minuto --  segundo estudo publicado pela ONG Save the Children.  Mudar esta realidade passa obrigatoriamente pelo fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia. Pois como a dinâmica do agronegócio é voltada à produção de commodities para suprimento de ração animal, esse modelo não consegue dar conta da fome no mundo.  Não por acaso, ao lado do combate ao desperdício, consumo sazonal e regional, exploração de novos sabores e cozinha eficiente, está o apoio ao pequeno agricultor, com aquisição de alimentos de produção agroecológica, entre as soluções que a Oxfam propõe para equacionar o problema da fome no mundo.



Hoje a agenda de desenvolvimento do Guapiruvu serve de modelo para outras comunidades que estão em uma região ambientalmente frágil, pobre e que precisam desses modelos de experiência para se desenvolver e compreender esse processo de sustentabilidade.  



(*)  Marcelo Cardoso é coordenador executivo do Vitae Civilis

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