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Descartáveis

Tenho um porta-lápis lotado de canetas promocionais que ganho em eventos. Quando acabam, vão para o lixo. É assim desde que eu era criança, com as inúmeras canetas esferográficas. Ao final de cada ano, um estojo de canetinhas hidrográficas ia para o lixo.

Canetas de plástico são embalagens para a tinta, que é o que usamos para escrever. Assim como as centenas de copos plásticos de iogurte ou requeijão que devo ter jogado fora ao longo da minha vida. Mas e o que dizer de certos aparelhos de barbear que não permitem que você troque as lâminas? Uma vez perdido o corte, o destino é o lixo. Ou ainda, dos copos plásticos? Porque neste caso não se trata da embalagem. Trata-se do produto em si.

Quando o hábito era comprar tecido para se fazer a roupa, o corte era sempre mais clássico, pois ela tinha que durar mais. Atualmente, a modinha acessível das lojas da José Paulino ou do Brás, aqui em São Paulo, permite o descarte das peças tão logo a estação tenha acabado. Sei de quem compra meias e as joga fora quando ficam sujas, pois seu custo é tão baixo que permite descartar (perdão pelo trocadilho infame) a etapa de lavagem do produto.

Esse fenômeno não é muito diferente do que acontece com celulares: cada vez que sou obrigada a trocar meu celular porque já não vendem mais bateria para o modelo que eu tenho, me deparo com um modelo que dura menos que o anterior. Agora há pouco estava conversando com uma pessoa que tem um computador de 2003e que já se tornou obsoleto para rodar programas mais pesados: descobri que é mais caro trocar uma única peça, o processador, do que comprar um aparelho novo (e fazer o quê com o velho? Jogar fora!).

Traduzindo: consumismo não é só uma atitude individual ou um estilo de vida. Tampouco é algo restrito às classes sociais mais altas. Consumismo é resultado da falta de opções não descartáveis. Alimentos, que há algumas décadas eram vendidos a granel, muitas vezes em embalagens retornáveis, hoje só estão disponíveis em algum tipo de invólucro plástico descartável. Em muitos casos, a opção não descartável implica em uma significativa diferença de preço. Ou você conhece alguma caneta tinteiro que custe barato? Em outros casos, sua vida útil é restrita: qualquer consumidora de Natura sabe que de tempos em tempos o tamanho do refil dos cremes muda para que eles não se encaixem nas embalagens antigas, levando a uma nova compra.

Sim, é óbvio que a prevalência dos produtos descartáveis visa aumentar vendas. Para tanto, vale-se da comodidade que esses itens oferecem. E viceja graças à simbiose em que mercado e psicologia coletiva se unem para cultuar a juventude e sua áurea, não necessariamente verdadeira, de liberdade, diversão e falta de responsabilidade. Afinal, o novo é sempre e necessariamente melhor que o velho, certo? Basta pegar as duas palavras – novo e velho – fora de contexto. Fale-as em voz alta. Que valores e imagens uma evoca? E a outra?

Como envelhecimento é um processo inevitável que atinge a todos nós, vale a pena rever os conceitos. Afinal, ninguém gosta de se sentir “velho” na maneira como o termo é sentido hoje. Mas também não dá para fingir que se é jovem: basta olhar para a Donatella Versace e ver o desastre que resulta dessa postura. Precisamos ressignificar “novo” e “velho”. E isso passa obrigatoriamente por mim e por você. Não como um processo de culpa (oh, meu Deus, meu banho está colocando em risco a vida do planeta!!!), mas de realização pelo simples prazer de conservar algo que nos é caro (para quem não sabe, essa palavra vem de cordis, que significa coração em latim). Prazer de preservar uma roupa bonita. Ou um celular no qual tivemos tantas conversas importantes. Ou ainda uma caneta com a qual deixamos nossa assinatura ao longo da vida. Preservar relações com pessoas queridas. E, principalmente, preservar a auto-estima mesmo diante da flacidez, da barriga e dos fios brancos.

Eu quero consumir. Eu gosto de consumir. Mas eu gosto de mim e, por isso, quero coisas boas. E as coisas boas, a gente não joga fora.

Itaipu promove campeonato de arremesso de celulares e notebooks

Ainda estou em dúvida se dou risada ou se choro com a notícia divulgada pela Itaipu Binacional. Para comemorar seus 35 anos, em outubro, e como parte das atividades da Semana da Segurança Empresarial, a empresa promoverá a segunda edição do Campeonato Sul-Americano de Arremesso de Celular e o 1º Campeonato Mundial de Arremesso de Notebook no estádio do Gramadão, em Foz do Iguaçu. Para deixar a iniciativa ainda mais esdruxula, uma equipe de engenharia de Itaipu está projetando um globo feito de lixo eletrônico...

Sinceramente, não sei se esse tipo de iniciativa contribui para chamar a atenção sobre o problema gerado pelo lixo eletrônico, como a empresa divulga em seu press release Tenho a impressão de que ela apenas cria um factóide midiático (tanto que já aconteceram torneios semelhantes aqui em São Paulo, promovidos por um programa de entretenimento do canal Multishow) que resulta tão somente no reforço à percepção de que estes produtos são fácil e totalmente descartáveis. Ou você se sente sensibilizado para a questão do acúmulo de materiais tóxicos no ambiente, provocado pelo descarte indevido desses produtos, ao ver a imagem de alguém arremessando-os para tentar ver quem alcança maior distância, como numa prova esportiva?

Reforça meu argumento o fato de que o arremesso de celulares foi "inventado" por um fabricante, a Nokia, que promove a prova anualmente na Finlândia há dez anos - e certamente ela não faz isso para promover a redução nas vendas de celulares... Agora, cá entre nós, a noção de que esses produtos são descartáveis já não está suficientemente disseminada entre os consumidores? Não basta venderem celulares que quebram em um ano? Ou que ficam obsoletos para os novos aplicativos em prazo pouco maior que isso?

Como os celulares são subsidiados pelas operadoras, não percebemos o quanto estamos jogando de dinheiro fora. Porque, sim, o aparelho acaba sendo pago por nós, consumidores, ao longo da conta telefônica. E quando somos obrigados a trocá-lo, geramos resíduos desnecessários no ambiente: mesmo considerando que existe resolução do Conama que obriga o recolhimento de baterias, devemos nos lembrar que seu material não é reintroduzido no ciclo produtivo, ao contrário do que acontece com as latinhas de alumínio. E o restante do aparelho não tem reciclagem obrigada por lei.

A Itaipu aproveitará o evento para montar postos de arrecadação de lixo eletrônico em Foz do Iguaçu. Segundo a empresa, o material arrecadado será doado para a Cooperativa de Agentes Ambientais da cidade. Resta saber se eles têm os meios para dar a correta destinação a equipamentos cujo desmonte é caro, complicado e que contêm metais pesados.

Já que Itaipu produz energia elétrica, não faria mais sentido a empresa promover campanhas de economia de energia, se ela quer se mostrar "sustentável"? Pois é: perder vendas ninguém quer! Agora, promover ações que geram mídia, aparentemente corretas e, principalmente, sem qualquer relação com o próprio negócio, aí tudo bem, né?

Nova conduta do consumidor pode inspirar empresas






Matéria de Silvia Czaspi, para o Valor Econômico, publicada hoje no Especial Negócios Sustentáveis

Decidida a mergulhar no mundo da sustentabilidade, a socióloga Silvia Dias, diretora da consultoria Aviv , passou a estudar e aplicar uma nova conduta em seu cotidiano, relatando seus progressos pessoais num blog. Depois de ouvir uma palestra sobre o descarte correto de eletroeletrônicos usados, passou a se informar sobre o assunto e ficou decepcionada.

"A engenharia não faz produtos fáceis de serem desmontados. Isso inibe o surgimento de recicladores, que também enfrentam a dificuldade de lidar com uma miríade de materiais, alguns dos quais muito tóxicos", afirmou ela em seu blog, citando, como exceção, componentes celulares, cujo descarte é regulamentado por uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

Silvia começou a busca pelo varejo. Por meio dos serviços de atendimento ao consumidor (SACs), três grandes redes, escolhidas aleatoriamente, declararam que não recebem usados para reciclagem. Buscou sites de fabricantes. Poucos descrevem serviços de logística reversa para recolher equipamentos obsoletos. Complementou a busca com novos telefonemas. "Parece que os SACs não têm script para esse tema, ou têm respostas genéricas, nem sempre adequadas."

"Consumidores perceberam que suas decisões individuais podem forçar mudanças de empresas, e com isso, melhorar o mundo. Um exemplo é a opção por produtos que consomem menos energia para combater mudanças climáticas", avalia o especialista Aron Belinky, que se aprofunda no tema em seu mestrado na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo (FGV/SP). Simultaneamente, diz ele, vem ocorrendo um deslocamento da ação política de indivíduos para a área do consumo. "Nas últimas décadas acentuou-se o fenômeno da transferência de boa parte do poder do Estado para o que chamamos de mercado", acrescenta o especialista.

Silvia foi atrás da Philips , que lhe deu uma resposta, a seu ver, exemplar. O SAC informou que a companhia recebe equipamentos. No entanto, apenas em Manaus (AM). "Como moro em São Paulo , a atendente pediu que eu buscasse o site da prefeitura. Não achei nada. Ficou a impressão de que eles não têm programa, ou pior, aproveitam-se de iniciativas de governo."

Apesar de meritória, Silvia também considera problemática a opção de doar equipamentos a quem precisa, já que o futuro descarte caberá a quem tem menos recursos e informações para atender os requisitos da correção ambiental.

As conclusões dessa consumidora consciente coincidem com resultados de recente pesquisa o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) sobre a política de descarte de lixo eletrônico, que também avaliou os canais de acesso ao consumidor e a similaridade de padrões nos demais países de atuação das empresas. Como base, o instituto remeteu questionário formal a 20 empresas - 14% operadoras de telefonia móvel, 33% de eletroeletrônicos e 53% de informática - e fez consultas aos respectivos SACs. Dez não responderam e foram desclassificadas. Das demais, só metade foi aprovada.

No caso da Philips, uma das reprovadas, a pesquisa critica a existência de apenas um projeto-piloto no Brasil para receber recicláveis, contra avançados programas da empresa na Europa. Em resposta ao Valor, a companhia declarou que sua central de informação ao consumidor propõe aos clientes que busquem locais próprios para reciclagem, ou os postos autorizados Philips, que recebem e encaminham os usados. Também afirmou que a sustentabilidade está relacionada ao grau de educação e de consciência das pessoas. E que o avanço dessa consciência no Brasil estimulou a empresa a investir no programa Ciclo Sustentável Philips, que pretende unificar o processo em todo o país.

Também questionada por não detalhar as ações realizadas e pela falta de uma política consistente para o descarte dos equipamentos, a Positivo Informática respondeu ao Valor que tem uma área em sua fábrica em Curitiba (PR) destinada ao gerenciamento dos resíduos gerados no processo produtivo. E que seu call center, após sugerir a doação dos usados a entidades, orienta consumidores para que os encaminhem a uma de suas 400 assistências técnicas, que cuidarão da remessa a Curitiba, onde ocorre a separação de componentes e entrega a recicladores.

Igualmente reprovada pelo Idec, que apontou falta de informação sobre programas de recolhimento de usados, apesar de haver um processo de recolhimento e reciclagem terceirizado para uma fundação, a Dell relata ter o programa Reciclagem Grátis para clientes pessoa física.

Segundo Cíntia Kahler, gerente dos programas de conformidade ambiental, a empresa recolhe equipamentos e periféricos da marca nas residências, promovendo desde o desmonte até a reciclagem, com foco na reutilização. Já o programa Doe Seu Computador, resultante de uma parceria com a Fundação Pensamento Digital, recebe computadores também de outras marcas, que recondiciona e doa a entidades filantrópicas.

A coordenadora-executiva do Idec, Lisa Gunn, lamenta que a responsabilidade dos produtores pelo produto descartado ainda engatinhe no Brasil, limitando-se a ações voluntárias.

Segundo ela, o país tem leis específicas só para alguns resíduos perigosos, como pneus. Também falta, segundo ela, avançar no direito à informação, que dê instrumentos para que o consumidor exerça a escolha correta.

O caminho para a sustentabilidade é pontuado por contradições, completa Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu. Com base em pesquisa promovida pelo Akatu em 2007, ele lembra que cerca de 77% dos respondentes declararam interesse em conhecer as ações socioambientais empresariais. Mas 51% declararam que, apesar desse interesse, não têm informações sobre o tema. E menos de 30% consideraram a hipótese de punir ou puniram a empresa, com a não-compra. "O consumidor precisa perceber que cada decisão de compra pode beneficiar, ou prejudicar, a sociedade e o meio ambiente", opina.

Apesar desses dados, ele nota a ascensão de empresas que adotaram a bandeira de sustentabilidade, como o Banco Real , entre as do mercado financeiro, ou Boticário e Natura , do ramo de cosméticos. No seu entender, o sucesso de corporações que aderem a práticas sustentáveis, com uma comunicação eficiente aos consumidores, faz com que outras busquem caminhos semelhantes.
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Descendo o cursor do lado esquerdo deste blog, vc encontrará um sub-título "Categorias", com vários itens. Um deles é "lixo eletrônico": clique em cima e você terá acesso a tudo que já escrevi sobre o tema aqui, incluindo o texto citado na matéria do Valor reproduzida acima.

São Paulo sai na frente no combate ao lixo eletrônico

A boa notícia do dia é que a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou um Projeto de Lei que obriga as empresas que fabricam, importam ou comercializam produtos eletrônicos a reciclar ou reutilizar o material descartado, total ou parcialmente. Quando não for possível reaproveitá-lo, será necessário neutralizar o lixo. Para entrar em vigor, falta a assinatura do governador José Serra, o que deve ocorrer dentro de 30 dias. Depois, virá a regulamentação, pela Secretaria do Meio Ambiente, que determinará as normas e categorias de aplicação. O que já se sabe é que o descumprimento da lei implica em sanções que vão de advertência a multas diárias em torno de R$ 14 mil.

A lei paulista sai antes da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que está há mais de 10 anos sendo “debatida” no Congresso Nacional. Ou seja, atualmente não há uma legislação que regulamente o descarte do lixo tecnológico (a não ser pilhas e baterias, cobertas por legislação CONAMA). Ocorre que computadores, TVs e geladeiras possuem metais pesados e outros elementos contaminantes do ambiente. Por isso, seu recolhimento pelos fabricantes, quando deixam de ser usados, é uma tendência em todo o mundo.

Quando sair a lei, será importante que fiquemos de olho na forma como os produtos serão reciclados. Nos Estados Unidos, por exemplo, a lei gerou um fluxo de exportações de lixo eletrônico para países em desenvolvimento, como China, Índia e Paquistão, nos quais os custos de reciclagem são 1/15 menores que nos EUA. Só que preço baixo geralmente significa que as externalidades não são computadas.

Resultado: um dano humano e ambiental seríssimo.

Confira o vídeo abaixo, produzido pelo site norte-americano Good, que explica de forma bem didática o risco do lixo eletrônico – e o problema da exportação da reciclagem.



Caso queira mais informações sobre o assunto, clique em LIXO ELETRÔNICO no menu de categorias (tags) que fica no lado esquerdo na tela deste blog.

Como reciclar CDs

“Estou com vários CDs que de nada servem, pois não são regraváveis e o conteúdo deles está obsoleto. Quero jogá-los fora mas não sei como proceder. Tem alguma idéia?” Carin Duarte.

A primeira pergunta é: o CD exige um descarte diferenciado? Ou ele pode ir para o lixo comum?

Uma análise dos elementos que compõem um CD mostra que ele não possui nenhuma substância tóxica (ufa!), mas sim de materiais que demoram até 450 anos para se decompor. Ou seja, o principal problema do descarte incorreto do CD é o volume que se acumulará na natureza.

Esse volume é composto basicamente por uma base plástica de policarbonato coberta por uma camada reflexiva feita de liga metálica de ouro, prata ou alumínio, além de uma camada de gravação, de laqueamento e uma superfície de proteção.

O processo de reciclagem inclui a desmagnetização, o desmonte dos discos e a reciclagem do plástico e de outros componentes. Ou seja, é complexo e caro. Para se tornar economicamente viável, ele dependeria ou da força da lei, obrigando a reciclagem, ou de incentivos que tornem esses materiais economicamente competitivos.

Pois é: se você pensou “xi... isso não deve existir aqui no Brasil”, sua resposta está eeeeeeeeexata!!!

A reciclagem de CDs já ocorre em países desenvolvidos, porém mesmo lá apenas em escala industrial. O consumidor... bom, quem se importa com o consumidor, né? Para ele, ficam as fatídicas recomendações de “consumo responsável”: diminua a quantidade de dados desnecessários que são armazenados, reveja a necessidade de comprar CDs com informações disponíveis na internet, não aceite CD’s promocionais...

O consumo responsável é importante, porém ele complementa (e não substitui) a necessidade de processos de reciclagem que permitam o correto descarte do material já existente – e que foi adquirido sem que houvesse qualquer informação ou educação ao consumidor sobre seu impacto no ambiente. A reciclagem artesanal, responsável por peças belíssimas e inusitadas, é uma alternativa complementar, porém de baixo impacto e, evidentemente, insuficiente para resolver o problema.

Enfim, Cárin, enquanto a legislação não vem, tente o site http://www.setorreciclagem.com.br/, onde existem recicladores que aceitam doações de CDs.

Apple: transparência total na comunicação

Ontem falamos da Coca-Cola, que exagerou na comunicação de suas ações de sustentabilidade a ponto de colocá-las em xeque perante a opinião pública. Hoje, vamos falar do oposto: uma empresa que decidiu explicitar todos os limites de uma ação de reciclagem.

Trata-se da Apple, nos Estados Unidos (porque aqui no Brasil os caras não têm qualquer iniciativa de logística reversa). Até 31 de julho as escolas daquele país podem se cadastrar no site deles para que seus computadores – qualquer um, de qualquer marca – sejam recolhidos para reciclagem. A ação não está vinculada a qualquer ato de compra, não implica em custo para as escolas, mas vale apenas para as instituições com mais de 25 máquinas para reciclagem.

A comunicação da empresa está sendo totalmente transparente: eles informam a abrangência da ação (qualquer computador), público à qual se direciona (escolas nos EUA com mais de 25 computadores para reciclagem), duração (até 31 de julho) e custos (por conta da Apple).

Pergunta: como você reage a este tipo de comunicação? Você fica com a impressão de que é muito pouco, face o tamanho da Apple no mercado? Ou você fica satisfeito com a coragem dos caras em comunicar os reais limites de uma ação pontual em todas suas dimensões?

Poste em COMENTÁRIOS (ver abaixo) a sua opinião!

73 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2015

Relatório da Pike Research diz que o descarte de lixo eletrônico no mundo atingirá seu ápice em 2015, quando o descarte atingirá a incrível marca de 73 milhões de toneladas de computadores e celulares e iphones e ebooks etc. A partir de então, segundo o estudo, essa quantidade declinará graças à regulamentação governamental e à adaptação da indústria.

Será?

Bom, estamos falando em um horizonte de seis anos. E vários fabricantes, como Cisco, Dell, HP, Motorola, Nokia, Research In Motion, Sprint Nextel e Vodafone já acordaram para o problema e estão investindo em logística reversa (que é o nome técnico que se dá à prática de recolher os produtos que os consumidores descartam, como acontece aqui no Brasil com as baterias de celulares). Só que, como o próprio estudo admite, essa cadeia ainda é cheia de vulnerabilidades: quem não recebeu por email aquelas imagens de crianças separando lixo eletrônico na China?

Segundo o estudo, o principal desafio é o comportamento do consumidor porque “é muito fácil e relativamente barato simplesmente jogar no lixo” - nas palavras de Clint Wheelock, diretor da Pike Research. Tá. É mesmo. Agora, como consumidor, que alternativas você tem? Já escrevemos sobre isso neste blog: as opções de descarte correto são poucas, mal divulgadas, trabalhosas e geram custos. Nesse contexto, qual a margem de manobra dos consumidores? - lembrando que , no Brasil, a classe C é prevalente, portanto a questão do custo é fundamental.

O estudo admite que a consciência do consumidor está mudando e coloca esse como um dos itens que permitirá a redução do nível de lixo eletrônico a partir de 2016. Mas só consciência não basta: é preciso ter os meios para se fazer algo. E é aqui que entram empresas e governo.

À empresa cabe conversar com a cadeia recicladora e criar um ciclo de vida de produto mais sustentável.

Ao governo, cabe regular. E aqui, prezado(a) leitor(a), há um desafio enorme. Pois não são todos os países que têm legislação sobre lixo eletrônico. Pegue o caso aqui do Brasil: a lei só regula o descarte de pilhas e baterias. Mas um computador, uma televisão e – por que não lembrar? — uma geladeira, um microondas, um radinho de pilha também tem inúmeros componentes perigosos. Por conta disso, muitas multinacionais agem de uma maneira no país onde há lei e de outra, no país onde não há.

Como tampouco existe um padrão global, é grande o risco de termos legislações diferentes de país a país, dificultando a cooperação e o estabelecimento de uma cadeia global de recolhimento, reciclagem e reintrodução dos materiais no ciclo produtivo.

No Brasil e em outras nações em desenvolvimento temos a opção de doá-los. A primeira vista, é uma solução que incorpora um benefício social. Mas o que acontece quando quem recebe a doação precisa jogar fora o produto doado? Pois é: o que aparentemente é socialmente justo é, na verdade, uma simples transferência do problema para a população mais pobre. Em outras palavras, a doação não substitui a montagem de um processo de descarte correto.

Sinceramente, não sei se conseguiremos reverter o crescimento do lixo eletrônico.

Mas eu gostaria muito que fosse possível.

NÃO DEIXE DE VER ESTE VÍDEO!

"A História das Coisas" - talvez você já tenha recebido este vídeo por email. Mas ele é perfeito para esclarecer inúmeros conceitos que embasam a sustentabilidade, como ciclo de vida de produto, externalidades, respeito às pessoas...

Mas a melhor parte é quando a apresentadora fala que na nossa sociedade somos identificados, medidos e valorizados como CONSUMIDORES – e não como homens, mulheres, pais, mães, amigos... A parte que relaciona consumo e auto-estima é fantástica!

Não deixe de ver!



Dica da Cárin Duarte. Obrigada, Cárin!

Porque é importante reciclar eletrônicos

Quando se fala em reciclagem, a primeira imagem que vem à nossa mente é a do reaproveitamento de materiais. Sim, isso também é possível com os eletrônicos. Mas no caso de pilhas, baterias, computadores e TVs há um motivo mais grave: impedir que metais pesados e substâncias tóxicas sejam liberadas no ambiente.

Nada menos que 25% do peso de um tubo de TV antigo (não de plasma ou LCD) ou de um monitor de computador é constituído de chumbo. A exposição crônica a este metal causa tremor muscular, alucinações, perda da memória e da capacidade de concentração, sintomas que podem progredir até o delírio, convulsões, paralisias e coma – além de anemia e complicações renais.

Um monitor também possui fósforo, na forma de pó – que concentra boa parte do chumbo do aparelho e, portanto, pode causar intoxicação se inalado, quando o monitor se quebra. Mesmo se ninguém respirar o pó, ao atingir o solo, ele o contaminará.

Isso para não falar nas lâmpadas fluorescentes! Elas possuem mercúrio, metal que pode causar lesões no sistema neurológico e levar até à vida vegetativa ou à morte, conforme a concentração. Sim, a concentração por unidade é pequena – cada lâmpada possui entre 5 e 20 gramas. O problema é que a falta de informações claras ao consumidor faz com que o descarte seja feito com o lixo comum. Dependendo de seu destino, esse lixo, com várias lâmpadas, pode contaminar solos e lençóis d'água, e, conseqüentemente, os alimentos, ou ainda populações que morem perto de aterros e lixões.

São Paulo tem programa para coleta de lixo eletrônico

Se você mora em São Paulo, não precisa depender da boa vontade dos fabricantes para dar um happy end ao ciclo de vida dos eletrônicos. A Secretaria do Meio Ambiente tem um programa chamado Mutirão do Lixo Eletrônico - na verdade, uma articulação de recicladoras e ONGs para recebimento e destinação apropriada de pilhas, baterias, celulares, computadores, televisores, DVD’s, CD´s, rádios e lâmpadas fluorescentes. Os endereços onde você pode entregar seu eletrônico usados estão listadas aqui.

Procura-se como reciclar um eletrônico

Se você, como eu, decidiu que terá o cuidado de dar uma destinação correta a computadores, televisores, celulares, geladeiras e demais eletrônicos usados, prepare-se: não vai ser fácil.

Esta indústria não tem uma cadeia produtiva sustentável. A engenharia não faz produtos fáceis de serem desmontados. Isso inibe o surgimento de recicladores, que também enfrentam a dificuldade de lidar com uma miríade de materiais, alguns dos quais muito tóxicos (como os metais de baterias de celular e computador). Para piorar a situação, estamos falando de uma indústria globalizada que enfrenta uma enorme variedade de legislações a respeito, conforme o país.

E legislação faz diferença!! Tanto que qualquer consumidor pode dar uma destinação correta a seu celular (bateria, componentes, capa) graças à resolução CONAMA que obriga os fabricantes a isso. Resultado: pontos de reciclagem são facilmente encontrados nas lojas das operadoras.

Mas se o objeto a ser reciclado for um computador, um televisor ou um microondas, a situação se complica.

Comecei minha pesquisa pelo varejo, ligando para as três enormes redes de venda de eletrônicos: Casas Bahia, Magazine Luiza e Ponto Frio. Todas me informaram, via chat on line, que não recebem produtos usados para reciclagem.

Resolvi então procurar os fabricantes. Comecei pelos computadores. HP e Dell possuem esquema de logística reversa, descrito em seus sites. Positivo Informática, não. A Apple – que atua nos segmentos de computadores, tocadores de música e telefones – tem um programa de reciclagem liiiindo... que não está disponível no Brasil .

Liguei para a Philips, cujo SAC me informou que,sim! eles possuem esquema de logística reversa! Ok, então como faço para enviar meu produto? Resposta: “a reciclagem é feita em Manaus, então a senhora precisa procurar no site da prefeitura de sua cidade para ver como é feito o recolhimento”. Bom, o site da prefeitura de São Paulo, cidade onde vivo, é um portal, com milhares de informações. Perguntei à atendente da Philips em qual parte do site da prefeitura está essa informação e, obviamente, ela não soube responder.

E obviamente quando entrei no site da prefeitura e usei o serviço de busca para localizar informações sobre “reciclagem”, não veio NADA!

Liguei também para a Samsung, que oferece esse tipo de serviço nos Estados Unidos (http://pages.samsung.com/us/recyclingdirect/locations.jsp). O SAC me informou que bastava que eu procurasse uma assistência técnica que eles receberiam meu produto e o encaminhariam para a fábrica para reciclagem. Só que ao ligar para a assistência técnica indicada pelo SAC da Samsung, descobri que esse tipo de serviço não existe.

No caso da GE/Dako, pediram que eu ligasse na fábrica, em Campinas...

A esta altura do campeonato, eu louvei a sinceridade da atendente da Brastemp, que simplesmente admitiu que não há qualquer mecanismo de reciclagem dos produtos.

Por ser um país de enormes diferenças sociais, o Brasil ainda está no estágio em que a melhor reciclagem é a doação – o Comitê para Democratização da Informática já incluiu milhares de pessoas com base nesse mecanismo. Mas não podemos nos esquecer que embora inclusivo, esse esquema repassa o ônus do descarte para classes menos favorecidas. Ou seja, no final do ciclo de vida do produto é preciso haver uma destinação ambientalmente correta de fácil acesso para todos. Algo que, infelizmente, não existe no setor de eletrônicos.

Greenpeace lança guia de produtos eletrônicos verdes

Nos EUA, o Greenpeace acaba de lançar a 11a versão do seu Guia dos Produtos Eletrônicos Verdes, com a mais recente análise da performance ambiental de empresas de telefonia celular (Nokia, Motorola), computadores (Dell, HP, Lenovo, Apple) e eletrônicos em geral (Samsumg, LG, Nintendo).

O descritivo é simples e objetivo - um exemplo para quem trabalha com relatórios! São apenas duas tabelas por empresa: a primeira, com a média ponderada por tema; a segunda, com o detalhamento dos itens analisados: uso de produtos químicos, descarte do lixo eletrônico e eficiência energética.

Essa análise gerou um ranking, liderado pela Nokia. A pior nota - pasme! - foi para a Nintendo!!
Os fabricantes de computadores HP, Lenovo e Dell tiveram um ponto descontado da média que determina sua posição no ranking porque não cumprirão o acordo, firmado com o Greenpeace, para eliminar até o final deste ano o PVC e os retardantes de chamas à base de brominatos (é assim que se fala em português?!?!). A Lenovo comprometeu-se com uma nova data - 2010 - mas a HP e a Dell ainda não informaram o novo prazo.

O impacto ambiental de um computador

Você sabia que a produção de um desktop comum, que pesa meros 10 kg, consome 1 tonelada e meia de água + 2 toneladas de recursos da crosta terrestre?

E você sabia que hoje, segundo a ONU, existem 700 milhões de computadores obsoletos no mundo?

Basta fazer as contas para chegar à conclusão de que a cadeia produtiva da computação jogou literalmente no lixo 1,4 bilhão de toneladas de recursos terrestres + 1 bilhão de toneladas de água!

Em termos ecológicos, isso é um desastre. Em termos econômicos, isso é um enorme desperdício. Em termos sociais, isso é injusto, pois essa situação leva a uma nova etapa de trabalho que será paga pela sociedade (na forma de impostos para financiar a reciclagem ou para gerir o descarte dessa montanha de lixo).

Se pelo tripple bottom line (*) a forma como a indústria de computadores gerencia o ciclo de vida de seu produto não é sustentável, do ponto de vista da perenidade do negócio é quase uma atitude suicida: conforme noticiou a edição de abril deste ano da Superinteressante (eu AMO essa revista!), diversos dos materiais utilizados pela indústria de eletrônicos está com os dias, quer dizer, com os anos contados. Contados entre 4 e 57 anos, para ser mais exata.

Surpreende, portanto, que TODA a cadeia da indústria eletrônica não esteja empenhada em mecanismos de logística reversa (recolhimento dos produtos pelos fabricantes para uma correta destinação após sua vida útil) e reciclagem, mesmo não havendo marco regulatório para isso aqui no Brasil. Em outros países, no entanto, tal procedimento é a regra: tanto que fabricantes multinacionais, como Dell e HP, já oferecem essa possibilidade em nosso país. Pense nisso, na próxima vez que comprar um computador.

E nesta área, ninguém precisa reinventar a roda: basta consultar a Swiss e-Waste Competence http://www.e-waste.ch/ para checar como isso pode ser feito! A informação é pública e gratuita.

Empreendedores: esta é uma área promissora de negócios, pois certamente a procura pelos metais reciclados (e, por conseqüência, sua cotação) tende a subir nos próximos anos, em virtude da crescente escassez de matéria prima. Será que é por isso que a China está tão aberta a receber o lixo eletrônico de outros países? Afinal, boa parte dos fabricantes de componentes que abastecem todo o mundo está lá...

(*) Tripple bottom line, ou People, Planet, Profit são os resultados de uma empresa medidos em termos sociais, ambientais e econômicos.
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