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Guapiruvu: o Brasil que pode dar certo

Marcelo Cardoso (*)



Guapiruvu é um bairro da cidade de Sete Barras, no Vale do Ribeira, litoral sul de São Paulo.  Esta é a região de maior índice de pobreza no Estado de São Paulo, mas é também uma região importante pela preservação e pela unificação entre o social e o ambiental. Foi aqui que o Vitae Civilis deu início a seu trabalho em 1997 com uma agenda local de desenvolvimento.  E agora, em 2013, voltamos para olhar essa trajetória e avaliar o trabalho realizado para esta comunidade e a contribuição dada pelo Vitae Civilis a este processo.


Rio+20: a voz e a vez das pessoas


Pedro Telles, Luís Flores, Severn Suzuki,
Wael Hmaida, Rubens Born, Sharan Burrow, Kumi Naidoo eCamilla Toulmin

O fracasso da Rio+20 levou um grupo de notáveis a se manifestar individualmente, como pessoas, para além das bandeiras que seus movimentos representam. O resultado foi emocionante e passa uma mensagem de indignação e de esperança à sociedade.


“Não vamos desistir. Não vamos perder a esperança. Vamos continuar juntos e esperamos que esses lideres e negociadores se juntem a nós por mudanças concretas.”  Com estas palavras, Pedro Telles, um dos jovens que participou do projeto Youngers+Elders, resumiu o sentimento que levou líderes dos mais variados segmentos da sociedade civil – trabalhadores, comunidades indígenas, cientistas, setor privado, ambientalistas dos cinco continentes – a lançar na véspera do encerramento da Rio+20 uma carta aberta de repúdio ao documento O Futuro Que Queremos.  Em uma manifestação espontânea e pacífica, Severn Suzuki (a menina que, há 20 anos, fez um emocionante apelo aos chefes de Estado reunidos na Rio92), Luis Flores, Wael Hmaida, Sharan Burrow, Kumi Naidoo, Rubens Born, Fabian Cousteau e Camilla Toulmin representaram mais de 50 nomes de todo o mundo que já subscreveram a carta A Rio+20 Que Não Queremos” (clique aqui para ver o texto e a relação de signatários).
  
“Se esta declaração sair, vai ser a prova da falha do sistema de governança mundial.  O que significa quando lideres mundiais se juntam e não podem trabalhar para o bem da humanidade?”, indagou Severn Suzuki.  “Um processo sem metas, datas e inclusão da sociedade é inadmissível”, completou Sharan Burrow.  “Depois de quatro anos de crises econômicas, quero que nossos lideres nos liderem para uma nova economia.  Uma economia que seja baseada em novos valores e não em cima de uma dívida econômica e ecológica.  Tem que ser construída para benefício de muitos e não de poucos”, completou Camila Toullmin.

Wael Hmaidan, que representou as ONGs na sessão de abertura da parte oficial da Rio+20 e pediu a retirada da expressão que declara ter havido “ampla participação” da sociedade civil na produção do documento, lembrou o que ele aprendeu com a Primavera Árabe:  “A persistência faz a diferença”.

Kumi Naidoo também reforçou que a iniciativa de protestar contra o fracasso da Rio+20 foi deflagrada pela esperança: “Gandhi disse que primeiro eles te ignoram, depois riem na tua cara, depois lutam contra você e aí você ganha. Eles não estão nos ignorando, não estão rindo de nós: eles estão lutando contra nós, o que quer dizer que estamos prestes a ganhar”, concluiu.

“Esta é uma iniciativa de indivíduos de diferentes origens e segmentos, que vieram aqui se manifestar contra o resultado da conferência”, declarou Rubens Born na abertura do evento, que lotou uma das plenárias do pavilhão reservado aos Major Groups.  “É nosso dever, como cidadãos de nossos países e do planeta, expressar nossa indignação – uma indignação legítima e que não foi capturada e não está refletida na agenda oficial.  Porque a cada fracasso comprometemos o tempo e as opções para realizar a transição para um modo de vida sustentável”, completa.  

Se você também quer fazer parte desta iniciativa, mande seu nome para comunicacao@vitaecivilis.org.br  

Sustentabilidade no dia a dia: iluminação

São tantas as informações e questionamentos (e greenwashing!) que dá a impressão de que sustentabilidade: 1) é complicado; 2) é caro; 3) depende das empresas e governos.  Embora essas três opções sejam parcialmente verdadeiras, elas obscurecem o fato de que sustentabilidade também é simples, barata e está ao nosso alcance - é só prestar atenção a pequenos hábitos do dia a dia.  Por isso vou começar uma série de textos com dicas simples e práticas que ajudam a minimizar o impacto ambiental de nossa existência sobre o planeta - e que, de quebra, muitas vezes resultam em economia para o seu bolso!

Então, #ficadica de hoje: iluminação

Retrofit às margens do Sena

La Samaritaine, loja de departamentos fundada em 1870 e adquirida pelo grupo LVMH em 2001, fechou suas portas em 2005 e elas têm estado lacradas desde então. Seria apenas mais uma triste história do setor varejista não fossem alguns detalhes: o prédio estilo art decó que ainda conserva as escadarias, afrescos e o teto de vidro originais, fica na margem direita do Sena, praticamente ao lado do Louvre, diante da famosa Pont Neuf, em um dos pontos mais valorizados e badalados de Paris. Pois esta verdadeira jóia passará por um completo retrofit para adaptá-la às necessidades do nosso tempo: um prédio sustentável e multiuso. Nada que os belos e velhos prédios de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte e tantas outras cidades brasileiras também não precisem!


Duas décadas de mentiras de empresas e governos

Quando comecei este blog, me propus a sempre escrever os textos aqui postados, ainda que eles fossem apenas comentários em cima de notícias e opiniões de terceiros. Mas às vezes sou obrigada a abrir uma exceção. Já fiz isso com o magnífico texto de Germano Woehl Jr. sobre o marketing verde das empresas nas escolas. E hoje, reproduzo o primoroso texto da Graciela Gomez, da Associação Argentina de Jornalistas Ambientais, que traça um contundente histórico da relação entre governos e empresas produtoras de herbicidas. Ele relata, entre outras coisas, que "A indústria sabe desde a década de 80 que o glifosato causa má formações em animais de experimentação em doses elevadas. Também sabia desde 1993 que esses efeitos podem ocorrer com doses mais baixas e médias. Por sua vez, o governo alemão sabia que o glifosato causa má formações pelo menos desde 1998, ano em que apresentou seu relatório à Comissão da UE. A Comissão de Especialistas em Revisão Científica da UE sabe desde 1999 que o glifosato causa má formações. A própria Comissão Européia sabe disso desde 2002." No entanto, a revisão do glifosato, prevista para 2012, foi postergada para 2015. Um texto que merece leitura e atenção. Um tema que exige repercussão e mobilização.

O Senhor dos Prêmios

Existe alguém esperando por você
Para lhe mostrar seu selo
E convencê-lo a crer!
Mais um prêmio sem razão
E já são tantos os rankings feitos em vão
Mas explicam novamente
Que o marketing convence o presidente
E põe em movimento a corporação
Um prêmio sempre avança a companhia
Mesmo sem alterar em nada a tecnologia
Prá que mudar a energia
Se selos e prêmios dão mais lucros
E reputação?
Existe alguém que está contando com você
Prá aderir ao prêmio e ao selo
Pois é neles que todo mundo vai crer!
E quando vier a enchente,
A seca, o calor, a gente doente
Ele vai se inscrever em novos prêmios
E começar tudo novamente!
Que belíssimas cenas
De destruição
Não teremos mais problemas
Com a superpopulação
Veja que relatório lindo
Fizemos prá você
Lembre-se sempre
Que Deus está
Do lado de quem vai vencer!
O Senhor dos Prêmios
Não gosta de mudanças
O Senhor dos Prêmios
Não gosta de mudanças
O Senhor dos Prêmios
Não gosta de mudançaaaaaaaaaaaaaaaaaaas!

Escola americana troca cortadores de grama por ovelhas

Tudo começou como uma piada que, levada a sério, pode se provar uma solução simples e sustentável para manter aparada a grama do campus de uma escola: ao invés de cortadores, ovelhas! A ideia foi de Eric Sands, dono dos animais de assistente do diretor da Carlisle Area School District, em Cumberland County, Pensilvânia. Atualmente, os animais pastoreiam ao redor dos painéis solares que já alimentam a instituição. Ainda não se sabe se emitem menos gases causadores do efeito estufa que seus contrapartes elétricos, porém é certo que levarão a uma economia de pelo menos US$ 15 mil / ano nos gastos de manutenção da escola. #ficadica

 

Farmville? Esqueça! O lance agora é manejar uma APP no Facebook

Atenção habitante do FarmVille: se você gosta de agropecuária, precisa aprender a manejar uma APP. Afinal, as Áreas de Preservação Permanente estão no cerne das controvérsias sobre o Código Florestal!  Onde fazer isso?  No próprio Facebook!

O aplicativo foi desenvolvido pela Cenários Futuros que, com ele, visa explicar os conceitos de conservação de forma lúdica. A dinâmica básica consiste em plantar árvores de diversas espécies, o que por si só atrai animais para sua área e também aumenta o nível de retenção de carbono. É possível fazer a colheita de frutos, mudas e até madeira, explorando os recursos naturais de forma sustentável, levando em conta às condições ecológicas locais, fundamentais na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica. O crédito de carbono também é utilizado como medida para que você passe de level e consiga adquirir espécies de árvores mais lucrativas. O jogo conta ainda com informações sobre plantas, prêmios e categorias de evolução do responsável e também com desastres ambientais que o jogador terá de lidar.

Então, que tal praticar um pouco? Basta acessar http://apps.facebook.com/cenarios_futuros

Linha histórica dos indicadores de sustentabilidade


Bernardo Eckhardt, analista ambiental do Ibama, organizou uma linha cronológica com a evolução dos indicadores de sustentabilidade considerando seu contexto histórico, político e econômico depois de ler o livro "Mundo em Transe: do aquecimento global ao ecodesenvolvimento" de José Eli da Veiga. O diagrama foi validado pelo próprio José Eli.

Os países mais verdes do mundo

Você conhece o Índice de Performance Ambiental (EPI)? Trata-se do ranking dos países mais verdes do mundo. Elaborado pelas universidades Columbia e Yale, nos EUA, ele classifica 163 nações de todo o mundo segundo 25 critérios que, cruzados, mostram quais são os países mais verdes no mundo. No ranking da última edição – isso antes do recorde de desmatamento na Amazônia, da aprovação do Código Florestal, das mortes ligadas a madeireiros e carvoeiros na região Norte, do recorde de 7 milhões de veículos na cidade de São Paulo que consagra o transporte individual movido a combustível fóssil como opção preferencial da maior cidade do País – o Brasil ocupava a 62ª posição. Atrás dos Estados Unidos, o segundo maior emissor global dos gases causadores do efeito estufa.

Dia Mundial do Meio Ambiente: vamos fazer nossa parte?

De um lado, prefeitos plantam árvores no Parque do Ibirapuera, o mais tradicional da capital paulista e talvez um dos locais de São Paulo que menos precisa de plantio de árvores. Do outro, pessoas acotovelando-se para driblar o colapso do transporte público provocado pela greve dos trens urbanos.

Entre a foto oficial e a dura realidade fica nossa consciência - e o largo espaço de ação que cada um de nós tem.

Com modernização, câncer passou a ser a principal causa de mortes na China

Na China, o Ministério da Saúde acaba de anunciar que o câncer tornou-se a principal causa mortis, respondendo por um quarto das mortes no país. Essa transição das tradicionais pragas das nações pobres (doenças infecciosas e altas taxas de mortalidade infantil) para câncer, problemas cardíacos e AVCs coincide com a urbanização do Império do Centro. E as estatísticas mostram uma prevalência desse mal nas cidades industriais onde, como você deve saber, a poluição é tamanha que chega a ofuscar a vista, como uma neblina. Lembra dos Jogos Olímpicos, quando havia o receio, por parte do comitê organizador, da falta de condições respiratórias para provas envolvendo corridas (e, portanto, maior esforço cardiovascular)?

Pois é...

Sacolas plásticas: como viver sem elas

Tem horas que meus (muitos) cabelos brancos ajudam: eles indicam que vivi (e sobrevivi) ao tempo em que simplesmente não existiam sacolas plásticas. Por isso, acho graça quando vejo hoje tantas pessoas se perguntando como farão para viver sem elas. A boa notícia é que não é tão complicado assim.

Por um Código que defenda nosso patrimônio Florestal

Eu não ia escrever sobre o Código Florestal, porém mais uma vez recebi um email muito esquisito, como se fosse troca de mensagem entre duas pessoas e eu lá, copiada inadvertidamente. Linguagem jovem, links para vídeos e tudo mais - tudo defendendo os ruralistas. Obviamente não tenho provas, mas isso não me impede de ter essa sensação de que tem dedo da CNA por trás disso. E sensação/intuição, sabe como é, né? Batata!! Então, vamos descascá-las!

Quem disse que desenvolver um produto sustentável é complicado?

Como deixar uma lata de Coca-Cola mais sustentável? Tirando a tinta! Isso porque o processo de impressão gasta energia, além de poluir o ar e a água. Como a lata de alumínio é reciclável, a ausência de tinta ambém facilitaria o processo, já que dispensaria a separaçao da tinta tóxica do alumínio. Simples, não? E sem comprometer a beleza e a elegância do produto! Idéia do designer Harc Lee, que deveria ser rapidamente adotada pelo fabricante!

O tempo não para

Foi impossível não lembrar da letra do Cazuza ao ler os comentários sobre o encerramento das negociações em Barcelona, última etapa de preparação para a Conferência do Clima da ONU agora em dezembro, em Copenhagen. Mais uma vez, não houve avanço: a mensagem que ficou é "resolveremos no ano que vem" - já existe uma CoP16 programada para dezembro de 2010 no México (ao menos, escolheram um país melhor: não deixa de ser uma grande ironia discutir o aquecimento global em pleno inverno dinamarquês).

E embora os lobbies atravanquem as negociações, o tempo não pára. E a cada dia temos uma concentração maior dos gases causadores do efeito estura na atmosfera. Os efeitos, todos nós estamos sentindo - sejam os habitantes do Espírito Santo, acossados pelas piores enchentes das últimas décadas, sejamos nós, paulistanos, suando em bicas com este calorzinho senegalês! Mas ao contrário do que a expressão indica, aquecimento global não significa necessariamente temperaturas mais altas e sim picos mais agudos de temperaturas. Em outras palavras: quando faz frio, é muito frio; quando chove, é enchete; quando faz calor, socorro!

Ocorre que nada disso entra na conta das empresas ou da economia. Se as despesas provocadas pela concentração de CO2 na atmosfera fossem debitadas das empresas de petróleo (por exemplo, a conta da saúde pública com pessoas que ficam doentes por causa da poluição gerada pelos carros), certamente o petróleo não seria a energia barata que tanto apregoam. Se o custo da reconstrução de casas e das vidas das vítimas das enchentes do Espírito Santo, Santa Catarina etc. fosse debitado da Petrobrás, da Volkswagen, da GM, da Fiat etc., certamente ficaria evidente o custo real da opção infeliz que o Brasil fez lá atrás, com Juscelino Kubitschek, pelo transporte rodoviário de cargas e pessoas.

Mas embora a democracia seja o pior dos regimes políticos, com exceção de todos os outros, como dizia Winston Churchill, ela oferece a possibilidade de participação de todos. Por isso é importante assinarmos o manifesto da campanha TicTac (http://www.tictactictac.org.br/) para pressionarmos os negociadores que irão a Copenhagen nos representar. Sem nosso apoio, eles ficam à mercê dos lobbies setoriais interessados em manter tudo como está. Não é por acaso que, nos Estados Unidos, existem 8 lobistas por senador no Congresso apenas para influenciá-los CONTRA as negociações de clima. No Brasil, não é diferente: a cisão entre a ala representada pelo Minsitro do Meio Ambiente e a tchurma da Dilma Roussef já chegou à grande imprensa!

O discurso dos chamados desenvolvimentistas pode ser bonito (geração de empregos, renda, acesso ao consumo), mas não se engane: esse discurso é alimentado e bancado pelas grandes empresas. É o lucro delas que estão tentando preservar! A economia tradicional vai continuar nessa toada que você conhece - uma empresa comprando outra, máquinas substituindo pessoas - e que resulta em menos empregos, menos postos de trabalho e maior concentração de renda. O Lula falou ontem em Londres que ele quer que os bancos deem lucro porque quando eles dão prejuízo, todo mundo paga a conta. Ele só esqueceu de falar que essa lógica, que se tornou explícita com a crise financeira do ano passado, envolve também a questão ambiental: quem lucra com o pré-sal é a Petrobrás, mas quem paga a conta do médico e dos remédios para problemas respiratórios é você (diretamente ou pelos impostos que bancam o sistema público de saúde e as "farmácias do povo"). Quem lucra com a venda de veículos é a Volks, a Ford, a GM, a Fiat, a Renault, a Citroen... mas quem paga a conta dos hospitais onde estão as vítimas do trânsito somos eu e você. Quem lucra com a venda de sacolinhas plásticas são a Petrobrás, a Braskem, a Quattor... mas quem paga a conta pelo acidente de trânsito causado pelo motociclista que teve uma sacola plástica enroscada em seu capacete (como eu já vi acontecer) ou pela abertura de novos lixões nos grandes centros urbanos somos eu e você. Quem lucra com a soja e o boi são os financiadores da bancada ruralista - mas quem perde em qualidade de vida com o desmatamento da Amazônia somos todos nós habitantes deste planeta.

Se a manutenção da atual forma de contabilização da poluição só beneficia uma minoria e prejudica todo mundo, qual a base legal, ética e moral para manter as coisas como estão? Se você vai ser prejudicado se tudo ficar igual, por que você não bota a boca no trombone??

E antes que você me pergunte o que estou fazendo, adianto que quando comecei a acompanhar essa história - e percebi a dimensão do problema - comecei a escrever aqui no blog, a falar com amigos, a tuitar, a escrever para os veículos de imprensa, para o governo... Fui atrás para saber como participar da CoP15 e consegui: em dezembro, embarco para Copenhagen! E mesmo que tudo fique para 2010 no México, we shall never give up - nunca desistiremos! - parafraseando Winston Churchill mais uma vez.

Porque desistir é morrer antes do tempo.


mapa de riscos climáticos. Fonte: Maplecroft.

A ministra optou pelo atraso

Texto de Rubens Harry Born, coordenador adjunto da organização não governamental Vitae Civilis e coordenador geral da campanha tic tac tic tac (www.tictactictac.org.br), publicado no jornal O Globo de hoje:
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É de grande apreensão a noticia de que a ministra Dilma Rousseff exigiu revisão da proposta apresentada pelo Ministério do Meio Ambiente para que o país seja menos ambicioso no esforço de limitar as emissões de gases de efeito estufa, a fim de permitir maiores taxas de crescimento econômico do Brasil. Também é preocupante o fato de que os governantes considerem que somente a redução de 80% do desmatamento e o fomento aos agrobiocombustíveis são respostas suficientes aos desafios de fazer o país transitar para uma sociedade de baixo carbono.
Posturas como a defendida pela ministra Dilma Rousseff revelam concepções ultrapassadas de desenvolvimento, em que o "crescimento econômico" por si seria a forma de prover dignidade e qualidade de vida, e que tal crescimento necessariamente implica em desconsiderar questões de segurança e integridade ambiental. A premissa implícita nesta posição é de que seguiremos usando modelos de desenvolvimento e tecnologias que estão intimamente vinculados às causas antrópicas do aquecimento global: forte dependência da exploração e uso de combustíveis fósseis; geração de energia elétrica a partir de grandes usinas hidroelétricas, termoelétricas e nucleares; sistema de transporte rodoviário para cargas e pessoas; uso inadequado e ocupação descontrolada do território para atividades altamente impactantes, nas cidades ou no meio rural.
É certo que precisamos de investimentos em infraestrutura, tais como escolas, postos de saúde, geração de energia com base em fontes renováveis, transporte público limpo e eficiente, e que todas atividades humanas geram emissões de gases de efeito estufa. Mas é no mínimo falta de visão achar que o Brasil não pode trilhar para uma trajetória de sustentabilidade que concilie o bem-estar de sua população com maior zelo ambiental e responsabilidade internacional.
Faltam menos de 50 dias para a 15ª Conferência das Partes (CoP-15) da Convenção Quadro da ONU sobre Mudança de Clima, na qual se espera sejam tomadas decisões políticas que reorientem as atividades econômicas e sociais a fim de buscar reverter o aquecimento global. O Brasil pode e deve ter um papel de liderança para a adoção de políticas globais e nacionais condizentes com o enfrentamento da crise climática. E esse enfrentamento pode gerar inúmeras oportunidades de empregos "verdes", em atividades social, econômica e ambientalmente sustentáveis, e portanto servir de resposta para a "outra" crise — a financeira — cujos elementos vinculam-se também à noção de crescimento ilimitado e a qualquer custo.
Mudar hábitos de consumo ou sistemas e tecnologias de produção pode significar tanto melhor saúde, qualidade de vida, diminuição de custos, e simultaneamente, promoção da qualidade ambiental, mitigação do aquecimento global e geração de empregos.

Ruralistas podem inviabilizar plano brasileiro de redução de emissões

Hoje (03/11), o governo brasileiro se reuniu para discutir suas metas de corte de emissão de gases efeito estufa que serão apresentadas durante a reunião da Convenção do Clima em Copenhague (COP 15) em dezembro. Não houve consenso e o anúncio foi adiado em duas semanas. O único ponto que todos concordam é quanto a implementar um plano para diminuir em 80% o desmatamento no país até 2020. Mas se o presidente Lula não agir firmemente no âmbito da política interna, esse plano será pura ficção.

Amanhã (04/11) a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados votará o PL 6424/05, que anistia os desmatamentos ilegais ocorridos até 2006 e diminui o nível de proteção às áreas ambientalmente sensíveis, como beiras de rio, encostas, topos de morro. Se aprovado, os que desmataram ilegalmente 34 milhões de hectares, só na Amazônia, serão premiados, o que incentivará o avanço da ilegalidade. Parlamentares ligados ao agronegócio, muitos deles de partidos da base de apoio ao presidente, têm maioria nessa comissão e prometem aprovar o projeto, que é na prática uma revogação do Código Florestal, e o fim do natimorto plano brasileiro de diminuição do desmatamento.

Apesar de antiga, essa lei até recentemente vinha sendo precariamente cumprida. Mas com um melhor aparelhamento dos órgãos de fiscalização e uma maior cobrança por parte da sociedade, houve, nos últimos anos, significativo aumento das punições aos desmatamentos ilegais, o que gerou descontentamento da parte do agronegócio brasileiro que se beneficiava da impunidade. Com grande influência no parlamento, esse setor econômico passou a pressionar pela revogação da lei e pela anistia às ilegalidades já ocorridas, a forma mais simples de se legalizar. O próprio ministro da Agricultura vem sendo porta-voz dessas propostas, defendendo publicamente que a proteção às florestas sejam “atenuadas”.

Apesar de não serem maioria no Congresso Nacional, os parlamentares ligados ao agronegócio contam com a total omissão do governo Lula para levarem adiante esse projeto. Conclamamos o presidente Lula a atuar firmemente para que um retrocesso dessa envergadura não ocorra, pois caso contrário a reunião ministerial de hoje terá sido pura encenação e o plano a ser apresentado em Copenhague, independentemente de seu conteúdo, uma fantasia.

Assinam:

Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi)
Conservação Internacional - Brasil
Greenpeace
Grupo de Trabalho Amazônico (GTA)
Instituto Centro de Vida (ICV)
Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon)
Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora)
Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica (Ipema)
Instituto de Pesquisa da Amazônia (IPAM)
Instituto Socioambiental (ISA)
Programa da Terra (Proter)
Rede de ONGs da Mata Atlântica
Vitae Civilis - Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz
WWF - Brasil

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A sessão da Comissão é aberta ao público e qualquer pessoa pode acompanhar no plenário 2 do Prédio das Comissões da Câmara dos Deputados. Além disso, você pode cobrar o deputado que elegeu/o partido no qual votou, lembrando-os que interesses eles representam.

Os integrantes da Comissão que vota amanhã o Projeto de Lei que ameaça o futuro ambiental brasileiro são:

* Roberto Rocha (presidente – PSDB/MA)

* Marcos Montes (1º vice-presidente erelator do Projeto de Lei, DEM/MG)

* Jurandy Loureiro (2º vice-presidente,PSC/ES)

* Leonardo Monteiro (3º vice-presidente, PT/MG)

* André de Paula (DEM/PE)

* Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB/SP)

* Antônio Roberto (PV/MG)

* Edson Duarte (PV/BA)

* Gervásio Silva (PSDB/SC)

* Givaldo Carimbão (PSB/AL)

* Jorge Khoury (DEM/BA)

* Marina Maggessi (PPS/RJ)

* Mário de Oliveira (PSC/MG)

* Paulo Piau (PMDB/MG)

* Rebecca Garcia (PP/AM)

* Rodovalho (???) (DEM/DF)

* SarneyFilho (PV/MA)

* Zé Geraldo (PT/PA).

Os suplentes são: Aline Corrêa (PP/SP), Antonio Feijão (PTC/AP), Arnaldo Jardim (PPS/SP), Cezar Silvestri (PPS/PR), Fernando Gabeira (PV/RJ), Fernando Marroni (PT/RS), Germano Bonow (DEM/RS), Homero Pereira (PR/MT), Luiz Carreira (DEM/BA), Miro Teixeira (PDT/RJ), Moacir Micheletto (PMDB/PR), Moreira Mendes (PPS/RO), Nilson Pinto(PSDB/PA), Paulo Roberto Pereira (PTB/RS), Paulo Teixeira (PT/SP), ValdirColatto (PMDB/SC), Wandenkolk Gonçalves (PSDB/PA) e Zezéu Ribeiro (PT/BA).

Blog Action Day: mudanças climáticas

Hoje é o Blog Action Day. Mais de 10 mil blogueiros de todo o mundo, inclusive eu, comprometeram-se a postar sobre o tema Mudanças Climáticas. Trata-se de mais uma ação que visa alertar a sociedade e seus representantes sobre a urgência de se chegar a um acordo em dezembro, na conferência das partes da ONU, para minimizarmos as mudanças climáticas esperadas para as próximas décadas.

Não custa fazer um breve histórico da situação: a descoberta do motor provocou uma revolução na história da humanidade - pela primeira vez em milênios a produção seria gerada não mais por músculos (humanos ou animais). As fontes de energia, abundantes e baratas, foram o petróleo, o carvão e o gás, cuja queima gera energia... e CO2. Décadas e décadas de poluição na atmosfera fizeram com que o nível desse gás atingisse patamares acima dos historicamente conhecidos. Como o CO2 tem relação direta com a temperatura do planeta, a comunidade científica achou por bem alertar para o risco de termos mudanças no clima provocadas pela ação do homem pela primeira vez na história do planeta.

Toda unanimidade é burra. Portanto obviamente existem os que contestam esta teoria. Mas como ninguém está a fim de pagar para ver se é verdade ou não, oficialmente todos querem adotar a postura preventiva: sociedade civil, governos, setor produtivo... Oficiosamente, a história é outra: como todos vivem a pressão do curto prazo (governantes eleitos, executivos de empresas), poucos querem comprometer investimentos ou resultados por conta de uma história que não é 100% comprovada e cujos efeitos podem não me atingir agora! Porque essa é a dura realidade: quem é mais afetado pelas mudanças climáticas são as pessoas mais pobres, que habitam áreas de risco, e as nações mais pobres, que estão no cinturão ao redor do Equador, onde o aumento da temperatura será mais sentido. Quem decide muitas vezes está cercado pela estrutura dos Estados de bem-estar social, tem renda para contornar eventuais problemas - e pode nem viver para senti-los na pele (própria ou do outro!). Muitos dos efeitos das mudanças climáticas poderão só ocorrer ao longo das gerações futuras.

O resultado você pode ler nos jornais ou na internet: negociações travadas para a conferência da ONU. EUA e União Européia que não se entendem. No Brasil, uma política de esquizofrênicos: de um lado o Ministro do Meio Ambiente, Celso Ming, comemorando que o país tem metas arrojadas etc etc. Do outro, a candidata do governo, Dilma Roussef, pedindo revisão das metas porque diz que não vai sacrificar o crescimento econômico em prol do ambiente.

Nem ela, nem ninguém.

Existe uma falácia nessa história toda que está na raiz da discordância entre ambientalistas (os que querem preservar o meio ambiente) e desenvolvimentistas (os que querem o desenvolvimento econômico). Ela consiste na crença de que o mundo é estático. Do lado dos ambientalistas, isso leva à defesa da preservação das coisas como estão - o que é antinatural, pois o universo muda desde o BigBang! Ou seja, a saída não é congelar, porém mudar junto. Do lado dos desenvolvimentistas, por sua vez, a crença é que o atual modelo produtivo (não econômico, veja bem) é definitivo. Qualquer ameaça a este modelo seria uma ameaça à atividade produtiva, ao crescimento econômico e ao bem estar do ser humano (que precisa de emprego e renda para viver). Não é verdade: pesquisa e tecnologia podem mudar o modelo produtivo da pecuária, da indústria e da silvicultura - sim, precisamos pesquisar a Amazônia, e muito!, para saber como explorá-la de forma sustentável. Precisamos parar de criar complexos raciocínios e teorias baseadas em um preconceito irracional contra a atividade econômica, contra o capitalismo, contra o lucro. Lucro nunca foi problema; prejuízo, sim! Ninguém reduz a desigualdade social acabando com o lucro, mas acabando com a perda, com o prejuízo, com a falta de acesso a capital.
O viés moral também emperra qualquer tentativa de um acordo na medida em que coloca a questão das mudanças climáticas como uma opção da consciência. Aí, amigo(a), danou-se: tem mais de dois mil anos que a Igreja (qualquer igreja!) fala para não pecarmos e continuamos pecando - por que iríamos virar santos agora só porque alguma ONG ou o Al Gore resolveu pregar sobre sustentabilidade? Pressionar nossos representantes para que cheguemos a um acordo eficiente que possa realmente reverter a atual tendência de alterarmos, pela atividade econômica, o clima da Terra, não é uma questão de bom mocismo. Não se trata de salvar o planeta. É business as usual, darling. Por menos nobre e charmoso que isso pareça.

Para o dirigente de uma empresa ou país, é importante antecipar-se às mudanças climáticas, tentando revertê-las, por uma questão de risco: risco do investimento, risco de governabilidade. Ponto. E sustentabilidade não é um pilar de marca, pelamordeDeus, mas uma forma de gestão pela qual governos e empresas começam a contemplar em seus modelos de administração questões que antes não eram consideradas. E fazem isso para pesquisar, para conhecer, para testar... e descobrir novas formas de lidar com esses problemas antes que eles simplesmente virem um imperativo (da lei ou, pior, da natureza) a ser cumprido. Apenas para ilustrar: lixo era algo que se jogava fora até alguns anos atrás. Lixo, hoje, é um problema de gestão pública - precisa ser administrado, ter custos compatíveis, logística viável etc. etc. Para as empresas, lixo pode se tornar uma questão de logística reversa, como ocorreu com a indústria de pneus (que teve que engolir, goela abaixo, sem maionese, o ônus de recolher os pneus usados e lhes dar um destino correto).

Para você que me lê, sustentabilidade vai ser um novo modo de vida: uma nova maneira de consumir (porque custos que hoje não são repassados para você, consumidor, o serão no futuro), de se preparar para o mercado de trabalho (pois surgirão novas profissões, novos mercados, nova oportunidades) e de exercer sua cidadania: poucas questões explicitam tão bem que somos todos habitantes de um mesmo planeta, e não de um ou outro país, como o clima.

Neste Blog Action Day, peço a quem me lê que passe a encarar a questão das mudanças climáticas mais com os pés no chão do que com a cabeça nas nuvens. Idealismo é bom e sem ele a humanidade não vislumbra novos horizontes! Mas sem pragmatismo não caminhamos.

Al Gore na Fiesp

A palestra daquele que ficou conhecido como o próximo presidente dos Estados Unidos, como o próprio gosta de se apresentar, foi uma versão editada e sem slides de Uma Verdade Inconveniente (não assistiu? veja aqui!) com alguns subtemas específicos da realidade brasileira. Pedindo desculpas por falar de problemas brasileiros sem ser um brasileiro, Gore tocou no tema das queimadas. Ele fez questão de enfatizar que, em termos globais, as queimadas respondem por pouco mais de um quarto das emissões. Que a indústria ainda é a principal emissora. Porém que essa questão precisa ser enfrentada pelos brasileiros, que já contam com uma matriz limpa. Sempre lembrando que seu país, os Estados Unidos, tem muito mais a fazer, e que assuntos de Brasil são de responsabilidade dos brasileiros, ele chamou a atenção para o valor da Floresta Amazônica do ponto de vista da biodiversidade, prevendo que no futuro biotecnologia será uma indústria tão valiosa como a do petróleo é atualmente. “Vender a floresta pelo preço da madeira é como vender um computador pelo preço do silício que ele possui”, comparou.

Falando de oportunidades de negócios em uma economia de baixo carbono, Gore lançou a idéia de incluir, nos acordos que serão firmados em Copenhagen no final deste ano, a carbonização do solo. Segundo ele, técnicas milenares, como as utilizadas por alguns povos da Amazônia para produzir a chamada “terra preta” (queimando e enterrando material orgânico) podem seqüestrar carbono e deixar o solo ainda mais produtivo. Ele também destacou o potencial da indústria automotiva brasileira, com base no carro flex, e elogiou o programa brasileiro de produção de etanol – que, segundo ele, foi incluído em seu mais novo livro, Our Choice, a ser lançado dentro de três semanas (e convenientemente antes da CoP15). Também destacou o agribusiness nacional, que conseguiu um aumento de produtividade quatro vezes maior que o registrado no restante do mundo entre 1970 e os dias de hoje.

Demonstrando otimismo em relação à CoP15 – um otimismo pragmático, diga-se de passagem, com base no “mais vale um acordo que acordo nenhum” – Gore fez o mea culpa sobre a lentidão dos EUA no trato das questões climáticas. Ele explicou sobre as pressões do eleitor, preocupado com seu emprego (ainda mais em tempos de crise econômica) no meio do debate sobre meio ambiente. Um medo fundamentado no fato de que os EUA já perderam milhões de postos de trabalho para países menos rigorosos com direitos trabalhistas e legislação ambiental. Por isso, ele reforçou mais uma vez que acredita, sim, no conceito de responsabilidade comum, porém diferenciada, desde que cada um assuma a sua parte. Ao responder sobre a lei em tramitação no Congresso Americano, que propõe uma redução de apenas 4,5% nas emissões de CO2 naquele país até 2020 em relação aos níveis de 1990, Gore disse que o importante é colocar um preço no carbono - isso precipitará o restante do processo de redução e controle.

Assim como em Uma Verdade Inconveniente, Gore credita à falta de vontade política o pouco avanço nas questões ambientais. Porém vontade política, como ele mesmo gosta de repetir, é um recurso renovável.

Do que gostei


Quando ele falou na mudança de mentalidade da nossa época, que favorece um foco excessivo no curto prazo. Ele comentou que pesquisas com executivos americanos mostraram que eles não conseguem aprovar investimentos benéficos no futuro que exijam sacrifícios, mesmo que pequenos, no presente. Rever a noção de tempo – e, por consequência, de expectativa – é fundamental para avançarmos em direção a pensamentos e práticas mais sustentáveis.
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