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Violência na USP

Moro ao lado da USP há 38 anos. Das janelas da escola (estadual), dava para ver o campus. No último ano do ensino médio (à época, chamado de "colegial"), isso era uma tortura! Pois os professores apontavam para os prédios e diziam "no próximo ano, quando vocês estiverem lá". E o medo crescia. Será que conseguiríamos passar no vestibular? Naquela época, o medo também se fazia presente quando íamos passear no campus por causa dos rumores de um estuprador que atuava por lá. Quando finalmente passei na Fuvest, comecei a ter contato com os roubos e saques. A difícil convivência da USP com a comunidade do entorno tem história. E uma história que piora a cada capítulo.

Educação ou entretenimento?

O Jornal da Band produziu uma série de matérias sobre boas práticas educacionais de escolas públicas e privadas no Brasil. Denominada Missão Educar, a série pode ser conferida no YouTube - o link para o primeiro programa é http://www.youtube.com/watch?v=6l-mR84A9OM. Porém depois de ver as reportagens, me ocorreu que muitas vezes o que classificamos de "boas práticas educacionais" não tem nada a ver com educação. São puro entretenimento. :(

Buy Nothing Day: você compra essa idéia?

Criado pelo artista canadense Ted Dave e promovido pela revista Adbusters, o Buy Nothing Day, ou Dia Mundial sem Compras, acontece amanhã em todo o mundo, com exceção de Canadá e Estados Unidos. Nesses dois países, o Buy Nothing Day foi hoje, junto com a tradicional Black Friday. Não conhece? Pense bem: talvez hoje mesmo você tenha visto alguma matéria a respeito em algum telejornal. É aquele dia de grandes liquidações, com filas de consumidores esperando a abertura das portas das lojas. Guardadas as devidas proporções, é como a liquidação de começo de ano do Magazine Luiza.

Black Friday versus Buy Nothing Day: uma pesquisa no google não deixa dúvidas - o consumo ganhou. E, sinceramente, não haveria de ser diferente. Ou você deixaria de comprar aquele eletrônico de seus sonhos pela metade do preço para protestar contra o consumismo? Aliás, deixar de comprar algo em dia de liquidação é a melhor forma de protestar contra o consumismo??
Buy Nothing Day é mais um exemplo daquelas ações de comunicação que não conseguem ir além da paróquia: quem já é sensível ao tema, adere; quem não é, nem dá bola. Trata-se de uma iniciativa muito mais midiática do que efetiva, pois não leva à revisão dos (pré)conceitos que sustentam hábitos inadequados de consumo.

Porque o consumo em si não é bom ou mau: ele é simplesmente necessário. Do momento em que somos gerados precisamos de alimento e calor. Se hoje compramos nossa comida no supermercado e a gasolina no posto é porque somos incapazes de suprir todas as nossas necessidades e, sabiamente, fomos dividindo tarefas ao longo da História, gerando um dos mais humanos e democráticos exercícios de convivência: o comércio. Independente da cultura, do grau de urbanização, nível educacional ou econômico, todos nós vamos ao mercado para vender e comprar. Da antiga praça aos sites de internet, passando - por que não? - por este blog, que oferece minhas idéias para seu consumo (gratuito, porém consumo), o mercado nos une, quando é justo.

Então, a questão não é o consumo, mas a educação para o consumo: o entendimento dos motivos que nos levam a consumir, do que realmente precisamos, do que é preço e o que é valor, de conceitos básicos de finanças domésticas. Fala-se muito em empoderamento do consumidor, e isso é verdade: quem compra dá as cartas. Mas quem compra precisa ter conhecimento sobre seus direitos e deveres, sobre o impacto e consequências de suas ações, para usar tal poder em seu favor. Caso contrário, continuaremos, como manada, a seguir os ditames dos publicitários e marqueteiros.

E esse senso crítico o Buy Nothing Day não fornece, nem estimula as pessoas a procurar.

Escolas no marketing verde de empresas

Texto de Germano Woehl Jr *

Uma diretora de escola pública contou-me que a data que ela mais detesta é o Dia do Meio Ambiente. “As aulas são interrompidas para os alunos assistirem peças de teatro fajutas que a empresa traz de fora”, justificou, muito irritada.

O que mais me surpreendeu foi uma outra diretora revelar que os alunos de sua escola já foram obrigados a se deslocarem quase 200 quilômetros até a sede de uma empresa do “setor florestal” para um evento extremamente chato no Dia do Meio Ambiente, sendo que o fretamento dos ônibus e demais despesas da viagem teve que ser bancada pela Secretaria de Educação do município, que é muito pobre, cujo orçamento para a área de Educação, como se pode imaginar, é sempre muito minguado.

Os dois casos acima são de municípios que tiveram quase todo seu território coberto por reflorestamento de pinus e eucalipto de empresas do “setor florestal”. A indignação dos diretores e professores se justifica quando se folheia as cartilhas de “educação ambiental” que estas empresas distribuem nas escolas.

O desenho abaixo foi extraído de uma destas cartilhas, que menciona tratar-se do desenho selecionado através de um concurso promovido nas escolas no evento do dia da árvore. Reparem que já naquela época (2001) o aluno representou perfeitamente a mata ciliar de apenas cinco metros, redução que está em conformidade com o “Código Ambiental” de Santa Catarina, aprovado há poucas semanas.


Mas o desenho vencedor do concurso não foi este. É o que está na imagem no topo deste artigo e não deixa dúvidas sobre quais são os objetivos destas empresas.

Esta cartilha não foi a pior que eu vi. Tem uma outra, também de uma empresa do “setor florestal”, que conta uma história da amizade entre um menino e uma árvore. Logo no início, o menino reclama que está com muito frio e a árvore responde para ele cortar seus galhos secos e acender uma fogueira para se aquecer (para desespero dos diretores dos parques nacionais e do pessoal do previ-fogo do Ibama).

A historinha da cartilha de “educação ambiental” vai se desenvolvendo com a amiga árvore atendendo todos os desejos de consumo do menino (barco, casa, móveis…), mas sempre cedendo suas partes é claro. O curioso é que mesmo após ser derrubada e serrada, a árvore, ou melhor, suas tábuas continuam conversando com o menino. As paredes da casa conversam, bem como o casco do barco, a cama, mesa, cadeiras, carteira da escola… até os cadernos!

Estas empresas do setor florestal não são as únicas que utilizam as escolas para fazer marketing verde fortemente subsidiado com recursos públicos das prefeituras. Mas todas elas têm algo em comum: um tremendo passivo ambiental. Há casos de empresas que entram só com a idéia de projeto, daqueles bem manjados e sem nenhuma eficácia. Tudo é bancado pela prefeitura. É uma forma de parceria muito esquisita.

Os professores e diretores das escolas estão cada vez mais atentos a estas investidas das empresas e já começam a se rebelar e questionar estes abusos contra o ensino público. Eles percebem quando estão sendo usados apenas para o marketing verde de empresas. Mas são ameaçados e até demitidos, no caso de professores temporários e diretores. Conheço o caso de uma diretora de escola municipal que perdeu o cargo por este motivo.

O que deixou muitos professores perplexo no ano passado foi terem recebido uma advertência das esferas superiores de que eram obrigados a participarem do prêmio anual de uma grande empresa. Isto ocorreu logo após a primeira reunião com os representantes da empresa, quando nenhum professor compareceu. Tiveram que participar na marra.

Mas não são apenas os diretores de escolas e professores que odeiam as datas comemorativas relacionadas com o meio ambiente. Nos últimos anos não temos mais conseguido espaço nos jornais nestas datas, justamente devido a esta competição com os eventos oportunistas das empresas.

Mesmo com projetos inovadores de larga escala feitos com critérios científicos, sob a orientação de especialistas das melhores universidades do Brasil e do exterior, não conseguimos competir, por exemplo, com eventos pontuais de distribuição de mudas de espécies árvores exóticas ou o projeto de educação ambiental de outra empresa que deu um prêmio de R$ 500 para uma escola pela “criatividade” de reaproveitar o lixo, transformando uma caixa de papelão na forma de um computador, agregando tintas e outros materiais tóxicos. Ou seja, a caixa de papelão que poderia ser reciclada entregando-a limpinha para um catador agora vai para o lixo comum impregnada de produtos tóxicos. Este projeto da empresa ganhou destaque na edição estadual do maior jornal de Santa Catarina.

Quando a gente vê a edição impressa do jornal, com anúncios grandes e coloridos da empresa poluidora (com processos por vários crimes ambientais) em quase todas as páginas dá para entender tudo. Nossa esperança é a Internet, como o site O Eco.

Certa vez, ganhei um manual de comunicação para ONGs com uma dica para aproveitar bem as datas comemorativas para divulgar as ações em prol da sociedade, pois a imprensa costuma dar espaço para o trabalho desenvolvido pelas ONGs nestas datas. Acho que eles só esqueceram de alertar que no manual de comunicação do departamento de marketing das empresas também tem dicas parecidas e que elas inventam qualquer coisa, partem para o vale tudo, para ocupar este espaço.

É claro que nem todas as empresas agem assim. Temos muitos exemplos de empresas que realmente são responsáveis com o meio ambiente e que contribuem significativamente com a causa ambiental, fortalecendo as ONGs ambientalistas e também realizando projetos sérios de educação ambiental diretamente com as escolas.

Muitas empresas estão também se esforçando para melhorarem sua conduta ambiental e além de se adequarem à legislação ambiental investem recursos financeiros nos projetos das escolas e não apenas nos anúncios publicitários com utilização das prefeituras para executarem as “idéias”.
Aos poucos estamos construindo uma sociedade mais ética, cada vez mais crítica e consciente dos problemas ambientais. A geração que está vindo aí será bem melhor do que a nossa e certamente não vai aceitar mais o marketing verde enganoso de empresas e tampouco os meios de comunicação que propagam isso. E quem não mudar já tem data para fechar.

* O catarinense Germano Woehl Jr é doutor em física pela Unicamp, Pesquisador Titular do Instituto de Estudos Avançados, em São José dos Campos (SP) e nas horas vagas se dedica na defesa da Mata Atlântica através do Instituto Rã-bugio. Texto originalmente publicado no site O Eco, reproduzido no blog Sustentabilidade, mantido pela jornalista Andrea Vialli, e no site Mercado Ético.

Ecopedagogia


Encontrei na Revista Lusófona de Educação (http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/349/34900602.pdf) um artigo de Moacir Gadotti sobre o conceito de Ecopedagogia.

Como o próprio autor admite, não se trata de uma tendência concreta. Mas saber que já existe um questionamento sobre o enfoque antropocêntrico das pedagogias clássicas e, principalmente, uma proposta de abordagem a partir do Planeta é uma excelente notícia!!

Por trás do desejo de ser melhor

Mas por trás do processo de negação do outro está a afirmação do Eu - Eu sou melhor, eu sou mais puro, eu sou mais digno... Meu grupo tem mais direitos, tem mais história, meu Deus é mais verdadeiro... As facetas são múltiplas, mas a raiz é uma só: uma balança na qual a minha exaltação ocorre na exata proporção da degradação do outro.

Ok, é necessário rever e corrigir os mecanismos sociais por trás desse fenômeno (crise econômica, falta de perspectivas para a juventude, pobreza, ignorância etc. etc.), porém é preciso também começarmos a pensar nos PARADIGMAS EMOCIONAIS que regem a formação da nossa personalidade e nossa interação com grupos sociais. Sem uma atuação consciente e intencional sobre nossos mecanismos de projeção, auto-afirmação e criação de identidade, não conseguiremos dissociar barbárie e auto-estima.

Não estou fazendo psicologia de botequim. Estou falando de uma atitude que vale para as empresas, que tentam construir uma identidade corporativa junto a seus colaboradores; vale para governos e entidades da sociedade civil organizada que contribuem para a criação das identidades nacionais; vale para pais e professores e todos aqueles que lidam com crianças e jovens; vale para nós como consumidores, quando optamos por pagar mais por um produto pela exclusão social que aquele preço impõe para nos diferenciarmos...

É preciso ter consciência e cuidado com o que se esconde por trás do legítimo direito de querer ser melhor. Só isso.
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