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Existe barril de petróleo verde?

Talvez você já tenha visto a HRT anunciando o projeto Barril Verde HRT, que consiste na doação de R$ 1 a cada barril produzido pela empresa na Bacia do Solimões (AM) para ações de conservação da floresta e para a melhoria da qualidade de vida de seus moradores. Os recursos serão destinados à FAS-Fundação Amazônia Sustentável, que faz um belíssimo trabalho na região.

O que você achou da campanha em prol das sacolinhas plásticas?

Como milhóes de brasileiros, eu estava assitindo o último capítulo de Caminho das Índias quando vi o comercial da Abiplast sobre as sacolinhas plásticas. Trata-se do início de uma campanha orçada em R$ 7 milhões, custeada por fabricantes de sacolas plásticas e empresas petroquímicas, como Braskem, Quattor e a Petrobras. Ela conta com o apoio de um site e tem o suposto intuito de "tentar esclarecer a população a respeito do uso consciente das sacolas e do real impacto do produto ao meio ambiente", como escreveu o jornal O Estado de S. Paulo nesta última quarta, dia 9 - numa flagrante evidência de como o jornalismo brasileiro está distante da postura crítica que desejada (e alardeada em suas campanhas publicitárias). Caso você não tenha visto, clique abaixo e assita o filmete:



Bom, vamos começar pelo básico: a finalidade básica da sacola é transportar mercadorias. Ponto. Os demais usos, mostrados no filme, foram criados pelo consumidor justamente porque há sacolas plásticas em demasia em nossas casas. Se não houvesse, as soluções seriam outras - e poderiam ser mais sustentáveis. Por exemplo, o saco de lixo do banheiro pode ser de papel.

Chocou-me sobremaneira aquela cena das crianças jogando futebol com uma bola feita de sacolas plásticas. Uma bola feita de sacolas plásticas é uma evidência da pobreza, não é uma forma bacana, alegre, legal de usar o plástico, como vcs tentam mostrar! Sinceramente, eu fiquei passada com a tentativa de inverter a simbologia daquela imagem!

Outro problema sério da campanha é que ela destaca que há que se dar um descarte correto, porém deixa essa questão sem resposta, pois sabemos que a reciclagem de sacolas plásticas praticamente não existe na prática. Isso tampouco é resolvido com eficiência no site da campanha: embora ele tenha uma ferramenta "muderrna", baseada em google maps, ele simplesmente não dá resposta sobre os recicladores perto do endereço que você digita! Para falar a verdade, no site do Instituto Sócio Ambiental dos Plásticos (!!!!) é possível muito mais informações - e de muito melhor qualidade!

O plástico gera emprego, renda e produtos muito úteis para nosso dia-a-dia, porém eles não se degradam e, por isso, causam um problema ambiental seríssimo. Não faz sentido colocar no ambiente um produto que vai demorar séculos para se degradar e cujo uso foi de alguns minutos, para transportar um produto do guichê de pagamento ao carro e do carro para dentro de casa! Sua reutilização, portanto, deve ser estimulada, sim, porém seu consumo deve ser reduzido para que possamos aproveitar o que já existe - e não colocar mais lixo no ambiente. A cadeia de reciclagem e reaproveitamento tem que ser mais competitiva e, para tanto, é preciso que o uso do usado seja estimulado, não o do novo para gerar um usado.

Ao invés de gastar R$ 7 milhões para fazer greenwashing, as empresas fabricantes de sacolas plásticas e de matérias primas para tais sacolas deveriam destinar esses recursos para a pesquisa de materiais e tecnologias menos danosas ao ambiente, reciclando seus negócios. É como geradores de tecnologia e de produtos que as empresas podem contribuir para a sustentabilidade de nossa sociedade, e não com supostas ações de "esclarecimento" que nada mais são do que defesa de interesses setoriais.

E você, o que achou desta campanha?

Escolas no marketing verde de empresas

Texto de Germano Woehl Jr *

Uma diretora de escola pública contou-me que a data que ela mais detesta é o Dia do Meio Ambiente. “As aulas são interrompidas para os alunos assistirem peças de teatro fajutas que a empresa traz de fora”, justificou, muito irritada.

O que mais me surpreendeu foi uma outra diretora revelar que os alunos de sua escola já foram obrigados a se deslocarem quase 200 quilômetros até a sede de uma empresa do “setor florestal” para um evento extremamente chato no Dia do Meio Ambiente, sendo que o fretamento dos ônibus e demais despesas da viagem teve que ser bancada pela Secretaria de Educação do município, que é muito pobre, cujo orçamento para a área de Educação, como se pode imaginar, é sempre muito minguado.

Os dois casos acima são de municípios que tiveram quase todo seu território coberto por reflorestamento de pinus e eucalipto de empresas do “setor florestal”. A indignação dos diretores e professores se justifica quando se folheia as cartilhas de “educação ambiental” que estas empresas distribuem nas escolas.

O desenho abaixo foi extraído de uma destas cartilhas, que menciona tratar-se do desenho selecionado através de um concurso promovido nas escolas no evento do dia da árvore. Reparem que já naquela época (2001) o aluno representou perfeitamente a mata ciliar de apenas cinco metros, redução que está em conformidade com o “Código Ambiental” de Santa Catarina, aprovado há poucas semanas.


Mas o desenho vencedor do concurso não foi este. É o que está na imagem no topo deste artigo e não deixa dúvidas sobre quais são os objetivos destas empresas.

Esta cartilha não foi a pior que eu vi. Tem uma outra, também de uma empresa do “setor florestal”, que conta uma história da amizade entre um menino e uma árvore. Logo no início, o menino reclama que está com muito frio e a árvore responde para ele cortar seus galhos secos e acender uma fogueira para se aquecer (para desespero dos diretores dos parques nacionais e do pessoal do previ-fogo do Ibama).

A historinha da cartilha de “educação ambiental” vai se desenvolvendo com a amiga árvore atendendo todos os desejos de consumo do menino (barco, casa, móveis…), mas sempre cedendo suas partes é claro. O curioso é que mesmo após ser derrubada e serrada, a árvore, ou melhor, suas tábuas continuam conversando com o menino. As paredes da casa conversam, bem como o casco do barco, a cama, mesa, cadeiras, carteira da escola… até os cadernos!

Estas empresas do setor florestal não são as únicas que utilizam as escolas para fazer marketing verde fortemente subsidiado com recursos públicos das prefeituras. Mas todas elas têm algo em comum: um tremendo passivo ambiental. Há casos de empresas que entram só com a idéia de projeto, daqueles bem manjados e sem nenhuma eficácia. Tudo é bancado pela prefeitura. É uma forma de parceria muito esquisita.

Os professores e diretores das escolas estão cada vez mais atentos a estas investidas das empresas e já começam a se rebelar e questionar estes abusos contra o ensino público. Eles percebem quando estão sendo usados apenas para o marketing verde de empresas. Mas são ameaçados e até demitidos, no caso de professores temporários e diretores. Conheço o caso de uma diretora de escola municipal que perdeu o cargo por este motivo.

O que deixou muitos professores perplexo no ano passado foi terem recebido uma advertência das esferas superiores de que eram obrigados a participarem do prêmio anual de uma grande empresa. Isto ocorreu logo após a primeira reunião com os representantes da empresa, quando nenhum professor compareceu. Tiveram que participar na marra.

Mas não são apenas os diretores de escolas e professores que odeiam as datas comemorativas relacionadas com o meio ambiente. Nos últimos anos não temos mais conseguido espaço nos jornais nestas datas, justamente devido a esta competição com os eventos oportunistas das empresas.

Mesmo com projetos inovadores de larga escala feitos com critérios científicos, sob a orientação de especialistas das melhores universidades do Brasil e do exterior, não conseguimos competir, por exemplo, com eventos pontuais de distribuição de mudas de espécies árvores exóticas ou o projeto de educação ambiental de outra empresa que deu um prêmio de R$ 500 para uma escola pela “criatividade” de reaproveitar o lixo, transformando uma caixa de papelão na forma de um computador, agregando tintas e outros materiais tóxicos. Ou seja, a caixa de papelão que poderia ser reciclada entregando-a limpinha para um catador agora vai para o lixo comum impregnada de produtos tóxicos. Este projeto da empresa ganhou destaque na edição estadual do maior jornal de Santa Catarina.

Quando a gente vê a edição impressa do jornal, com anúncios grandes e coloridos da empresa poluidora (com processos por vários crimes ambientais) em quase todas as páginas dá para entender tudo. Nossa esperança é a Internet, como o site O Eco.

Certa vez, ganhei um manual de comunicação para ONGs com uma dica para aproveitar bem as datas comemorativas para divulgar as ações em prol da sociedade, pois a imprensa costuma dar espaço para o trabalho desenvolvido pelas ONGs nestas datas. Acho que eles só esqueceram de alertar que no manual de comunicação do departamento de marketing das empresas também tem dicas parecidas e que elas inventam qualquer coisa, partem para o vale tudo, para ocupar este espaço.

É claro que nem todas as empresas agem assim. Temos muitos exemplos de empresas que realmente são responsáveis com o meio ambiente e que contribuem significativamente com a causa ambiental, fortalecendo as ONGs ambientalistas e também realizando projetos sérios de educação ambiental diretamente com as escolas.

Muitas empresas estão também se esforçando para melhorarem sua conduta ambiental e além de se adequarem à legislação ambiental investem recursos financeiros nos projetos das escolas e não apenas nos anúncios publicitários com utilização das prefeituras para executarem as “idéias”.
Aos poucos estamos construindo uma sociedade mais ética, cada vez mais crítica e consciente dos problemas ambientais. A geração que está vindo aí será bem melhor do que a nossa e certamente não vai aceitar mais o marketing verde enganoso de empresas e tampouco os meios de comunicação que propagam isso. E quem não mudar já tem data para fechar.

* O catarinense Germano Woehl Jr é doutor em física pela Unicamp, Pesquisador Titular do Instituto de Estudos Avançados, em São José dos Campos (SP) e nas horas vagas se dedica na defesa da Mata Atlântica através do Instituto Rã-bugio. Texto originalmente publicado no site O Eco, reproduzido no blog Sustentabilidade, mantido pela jornalista Andrea Vialli, e no site Mercado Ético.
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